Entre regras e desejos

A designação.
Ela era gerente de produção; ele, gerente de marketing.
Trabalhavam na mesma empresa havia mais de três anos. Foram designados para atuar juntos porque a empresa estava formando acordos com grandes marcas internacionais. Uma delas ficava em Roma, no elegante bairro de Parioli.
Jhon estava feliz. Finalmente a Gloss Moda estava olhando para o seu trabalho com mais atenção. Ele precisava se sair bem naquela viagem, pois apresentaria o projeto do grupo de marketing. Porém, não estava muito animado para trabalhar com o pessoal da produção. Segundo as línguas afiadas dos corredores da empresa, eram mais lentos e pouco estratégicos.
Na verdade, Jhon nunca havia trabalhado diretamente com o grupo de Produção, mas os boatos o deixavam inseguro.
Kássia, por sua vez, estava ansiosa para trabalhar com o Marketing. Já ouvira dizer que eram focados, determinados e que haviam conquistado diversos prêmios para a empresa. Isso seria perfeito para fortalecer o setor de Produção.
Ela havia sido promovida fazia um ano e ainda não tinha participado de um projeto tão importante. Estava animada e decidida a provar seu valor.
A Gloss Moda tinha mais de quarenta anos no mercado, com filiais espalhadas pela Europa e pelas Américas. Contudo, vinha perdendo espaço para a concorrência e precisava voltar ao topo.
Era uma empresa séria e rigorosa. Não permitia, de modo algum, relacionamentos entre funcionários. Caso houvesse algum casal, deveria ser um relacionamento formal, com casamento comprovado.
Os antigos donos eram um casal de idosos já aposentados. Agora, quem comandava era Glória, viúva havia dez anos. Rígida e extremamente organizada, foi ela quem reforçou a regra de não envolvimento entre funcionários, após um escândalo no passado quase levar a empresa a uma crise pública.
Antes da viagem, Jhon e Kássia assinaram um termo comprometendo-se a não ter qualquer envolvimento. Caso houvesse algo entre eles e não fosse sério, como um casamento, ambos seriam demitidos sem direito a indenizações.
Mesmo sem se conhecerem profundamente, assinaram.

Destino: Roma.
E partiram para Roma.
Durante o voo, conversaram apenas o necessário sobre a empresa. Trabalharam nos slides e alinharam ideias para a apresentação. Ficariam quase um mês fora, participando de eventos de moda, cursos e encontros empresariais.
A viagem foi cansativa. Chegaram pela manhã, com o tempo apertado. Ficaram no mesmo hotel, mas em quartos separados.
Os eventos começaram às dez. Tiveram tempo apenas para um breve cochilo antes de se encontrarem na porta do hotel.
Foram dias intensos. Muitas ideias surgiram. Jhon anotava tudo, pensando em aplicar as novidades assim que retornassem a São Paulo, onde ficava a filial da Gloss Moda e onde ambos moravam.
Depois de quase um mês, chegou o grande dia da apresentação. Mostraram novas criações, com linhas que iam do infantil ao adulto, incluindo coleções de inverno e verão. Foi um sucesso. Saíram de lá com empresários interessados e propostas promissoras.
No sábado à noite, haveria o encerramento com uma festa de gala.
Kássia não gostava muito de festas, mas precisava comparecer. Haveria fotógrafos e repórteres — era uma oportunidade de divulgar a empresa. Jhon disse que passaria em seu quarto às oito.
O vestido, emprestado da amiga Simone,  era de seda preta, liso, com as costas à mostra.
— Antes eu tivesse visto o vestido que ela escolheu… Que vestido é esse?
O caimento era perfeito, mas ela se sentia tímida. Respirou fundo diante do espelho.
Tinha vinte e cinco anos. Já fora noiva, mas fora traída. Desde então, não acreditava muito em relacionamentos. Namorara seu ex noivo, desde os dezenove; se não tivesse descoberto a traição, ele continuaria com as duas ao mesmo tempo.
— Se não fossem as normas da empresa… — murmurou. — Jhon é lindo. Como nunca reparei antes? Não, Kássia. Nada de relacionamento.
Jhon, na casa dos trinta, era sério e focado no trabalho. Nunca se envolvera com ninguém da empresa. Já tivera namoradas, mas o excesso de dedicação ao trabalho sempre desgastava os relacionamentos. Estava solteiro havia meses e não buscava romance.
Ele bateu à porta.
Quando Kássia abriu, o ar pareceu mudar. Ele vestia um smoking azul-escuro impecável. O perfume misturava-se ao leve aroma do creme de barbear.
Ela prendeu a respiração.
Ele a olhou demoradamente. Estava deslumbrante.
Trocaram palavras embaralhadas, riram nervosos, e ele ofereceu a mão. Foram juntos até o salão.
A festa era movimentada. Empresários queriam conversar, repórteres faziam perguntas, fotógrafos registravam cada momento. Era mais um evento de divulgação do que diversão.
Depois de inúmeras entrevistas, Kássia escapou para a sacada. Estava exausta e faminta. Os pés doíam dentro dos saltos finos.
— Kássia? Por que está aqui? — perguntou Jhon.
— Esperando você. Cansei de falar e tirar fotos. Será que acharam que somos modelos da empresa?
Riram juntos.
Ainda aproveitaram para conversar com o presidente da empresa de Roma. Jhon conduziu a conversa com habilidade, e conseguiram que ele aceitasse analisar o portfólio da Gloss Moda.
Voltaram para o hotel aliviados. A cozinha já estava fechada, mas Jhon conseguiu alguns pratos e uma garrafa de vinho.
— Vamos para o meu quarto — disse ele.
Ela hesitou apenas um segundo.
Sentaram-se no sofá. Kássia tirou os sapatos com um suspiro de alívio. Jhon afrouxou a gravata e desabotoou dois botões da camisa.
Ela engoliu em seco.
Comeram, brindaram, riram. Depois de duas taças de vinho, o silêncio entre eles ficou diferente.
— Acho que está na hora de eu ir… — disse Kássia.
— Amanhã já é hoje — respondeu ele, sorrindo.
Ele a ajudou a levantar, segurando sua mão. O toque foi elétrico.
Se olharam.
O beijo veio contido, mas carregado de tudo o que vinham reprimindo desde a primeira reunião em equipe, dois meses antes. Foi breve, intenso, inevitável.
— E se descobrirem? — sussurrou ela, entre respirações aceleradas.
— Descobrirem o quê? — ele respondeu, aproximando o rosto do dela. — Não está acontecendo nada…
Mas ambos sabiam que estava.
    Entre regras rígidas e desejos silenciados, deixaram que, pela primeira vez, o coração falasse mais alto que o contrato.

Ele a pegou no colo, tentou levá-la até a cama, mas a poltrona foi o mais rápido que conseguiram alcançar.
Seus corpos tinham sede um do outro.
Pela manhã, Kássia acordou envergonhada. Ele ainda dormia profundamente. Pegou as roupas espalhadas pelo chão, olhou para ele por um instante e se perguntou onde ele esteve escondido todo esse tempo.
Ligou para o aeroporto. Em duas horas sairia o primeiro voo. Partiu sem avisar.
Jhon acordou feliz, pediu dois cafés. Descobriu que ela já havia feito check-out.
Sentiu alívio. E tristeza.
    De Volta a São Paulo
O avião pousou sob um céu cinza.
São Paulo continuava a mesma. A cidade não parava por ninguém. Nem por amores interrompidos. Nem por despedidas mal resolvidas.
Kássia respirou fundo ao sair do aeroporto. O ar parecia mais pesado do que ela lembrava. Ou talvez fosse apenas o passado esperando por ela.
Roma tinha mudado muita coisa.
  De volta a São Paulo, pensava em como ficariam as coisas.
Ela estava mais segura. Mais firme. Mais dona de si.
Mas ainda havia um nome que atravessava seus pensamentos como um sussurro persistente.
Jhon.
Ela pegou o celular. Precisava escrever para ele. Precisava dizer que sentiu falta. Que doeu. Que nenhuma conquista internacional tinha ocupado o espaço que ele deixou.
Abriu a conversa.
Ficou alguns segundos olhando para a tela vazia.
Seus dedos começaram a digitar antes que ela pudesse pensar.
“Eu ainda…”
Parou.
Apagou.
Respirou fundo. 

No dia seguinte
John recebeu uma mensagem:
“Olá, senhor Almeida. Seguem os alinhamentos da viagem. Os slides estão abaixo. Qualquer dúvida, podemos alinhar por aqui mesmo, já que estamos de folga.”
Ele releu.
Então seria assim? Fria, profissional… depois daquela noite?
A mensagem era formal. Fria. Profissional demais para quem, na noite anterior, havia perdido o controle nos braços dele.

   John releu cada linha como se procurasse, escondida entre os tópicos e anexos, alguma pista de sentimento.
Nada.

“Senhor Almeida.”
Nem Jhon. Nem sequer um ponto de exclamação.
    Do outro lado da cidade, Kássia fechava o notebook com as mãos ainda trêmulas. Não era frieza — era medo. Medo de misturar a mulher que despertara na poltrona daquele hotel em Roma. Medo de repetir o passado. Medo das regras. Medo de se apaixonar.
   Ela lembrava do toque dele. Do jeito como ele a olhava, como se não houvesse cláusula no mundo capaz de separá-los. E isso a assustava mais do que qualquer contrato assinado diante de Glória.

John respirou fundo e digitou uma resposta igualmente profissional. Mas apagou. Digitou outra. Apagou de novo.
Por fim, escreveu:
“Recebido, senhorita Kássia. Excelente trabalho.
Caso prefira alinhar pessoalmente, estou à disposição.”
    Enviou.
Minutos depois, o celular vibrou.
“Prefiro alinhar pessoalmente. Segunda-feira, 9h. Sala de reuniões.”
    O coração dele acelerou como se estivesse outra vez correndo contra o tempo em Parioli.
Segunda-feira chegou.
A sala estava silenciosa demais quando ela entrou. Postura firme. Mas os olhos… os olhos traíam a noite que haviam dividido.
— Bom dia, senhor Almeida.
— Bom dia, senhorita Kássia.
    Formalidade como armadura.
Ela abriu o notebook, começou a falar sobre números, contratos, cronogramas. Ele não ouvia nada além da própria respiração.
Até que, no meio de uma frase técnica, a voz dela falhou por um segundo.
Silêncio.
Ele levantou, fechou o notebook devagar.
— Se vamos fingir que não aconteceu, precisamos ser muito bons atores — disse baixo.
Kássia sustentou o olhar. O profissionalismo rachando, milimetricamente.
— E você é?
Ele sorriu de canto.
— Não quando se trata de você.
A porta continuava fechada. As regras continuavam existindo. A empresa ainda era rígida. Mas ali, naquela sala, havia algo mais forte que qualquer cláusula.
Talvez eles perdessem tudo.
Talvez fossem descobertos.
Talvez não durasse.
Mas, pela primeira vez, nenhum dos dois queria fugir.
E, dessa vez, ela não pegou o primeiro voo.
Jhon levantou-se e tocou o rosto de Kássia, que estremeceu. Seus olhos se entreolharam. Ele abaixou-se para beijar aqueles lábios quando a porta se abriu.
No susto, Kássia fingiu digitar no notebook, e Jhon, ainda inclinado, fingia ajudá-la em algo.
Era Glória, ansiosa por resultados. Entrou acompanhada das equipes de produção e marketing.
— Olhem se não são os meus melhores pupilos.
Ela ria. Raramente a viam sorrir daquele jeito.
O coração de Kássia disparou. Jhon continuava abaixado, porque suas pernas tremiam de nervoso.
— A apresentação está pronta?
Glória sentou-se na sala junto com as equipes.
Jhon levantou-se e colocou os slides para iniciar a apresentação. Kássia ficou ao lado dele. As mãos deles se tocavam de vez em quando — e isso não ajudava em nada.
A apresentação foi perfeita. Todos aplaudiram. Glória pediu que os dois fossem até o escritório dela após a reunião.
Enquanto isso, os colegas começaram com os elogios.
— Jhon, fala a verdade. Foi você que fez a apresentação toda. A Kássia só ajudou com o rostinho bonito.
Jhon bufou. A vontade era de tensão e ira. Sabia que sua equipe era orgulhosa e sempre queria estar acima de todos na empresa. Mas não permitiria que diminuíssem a equipe de produção.
— Não, Eduardo. Ela tem capacidade, é destemida e muito talentosa. O acordo com o presidente de Roma foi ela quem conseguiu.
Eduardo, com aquele sorriso ridículo, respondeu:
— Não disse que foi o rostinho bonito? E aí… rolou algo entre vocês?
A equipe inteira de marketing olhava para Jhon.
Ele sentiu o peso dos olhares.
— Eu estava a trabalho, não procurando romance. E, se estivesse procurando, ela seria a última pessoa que eu procuraria. Não faz o meu tipo.
Kássia havia saído com a equipe de produção, mas voltou à sala de reunião porque tinha esquecido o notebook. Ao abrir a porta, foi exatamente no momento em que Jhon dizia que ela não fazia o tipo dele.
Todos olharam para ela.
Com os olhos marejados, pediu licença, pegou o notebook e saiu.
Por dentro, Jhon se amaldiçoava. Mas naquele momento não podia voltar atrás. Estavam no trabalho. E Eduardo era um imbecil fofoqueiro.
— Vamos voltar ao trabalho. Tem muita coisa para fazer. Vou ao escritório da Glória.
Saiu apressado, talvez ainda a encontrasse.
Chegou ao elevador.
Ela estava lá.
Abraçada ao notebook. Talvez o odiando.
As portas se abriram, e ele entrou. Mas não estavam sozinhos — havia outros funcionários.
Nenhuma palavra foi dita.
No 14º andar, chegaram à sala de Glória. Ela estava ao telefone. Fez sinal para que se sentassem e pediu um minuto. Saiu para um local mais reservado no corredor.
Era o momento perfeito para Jhon se desculpar.
— Kássia, foi um mal-entendido. Eu não quis dizer aquilo.
Ela não olhou para ele.
— É melhor assim. Cada um segue sua vida e esquecemos o que houve em Roma.
Ele abriu a boca para argumentar.
A porta se abriu.
Glória entrou animada.
— Notícias maravilhosas! Era o presidente da empresa de tecidos na Índia querendo fechar contrato conosco. E vou pedir que vocês trabalhem juntos novamente. Já que deu certo em Roma, quero que, no mês que vem, vão à Índia apresentar a Gloss Moda e as ideias que desenvolveram.
Ela sorriu satisfeita.
— Temos pouco tempo, mas como as duas equipes já estão alinhadas, não teremos problemas com prazo. As passagens e hospedagem estarão disponíveis. Mais detalhes com a Simone. Parabéns!
O telefone tocou novamente. Ela atendeu e os dispensou com um gesto.
Kássia e Jhon saíram em silêncio.
Era assim?
Um “parabéns”… e agora Índia?
Kássia precisava ocupar a mente e tirar Jhon da cabeça. Afogou-se no trabalho junto com sua equipe. Iria mostrar ao marketing que não era apenas um rostinho bonito.
Trabalhou na produção de tecidos ao lado da equipe. As meninas do design também estavam envolvidas, unidas à produção. Antes da viagem para a Índia, queria apresentar algo concreto — não apenas imagens e conceitos.
    Foram semanas intensas até a data marcada para a viagem. Pelo menos na Índia seriam quinze dias de trabalho. Quinze dias dedicados exclusivamente ao profissional. Ela até orava para que não houvesse festas ou eventos noturnos, pois tinha receio de ficar a sós com aquele senhor charmoso.
Jhon, por sua vez, tentava de todas as formas subir ao décimo andar para ver se conseguia, ao menos de longe, olhar sua amada. Mas era em vão.
Kássia estava trancada com a equipe de design. Todas as dúvidas ela respondia por mensagem, quando não em reuniões formais entre as equipes.
A distância era estratégica.
O silêncio, proposital.
Mas o sentimento… esse continuava indisciplinado.
Destino: Índia.
   Eduardo passou a viagem inteira conversando com Kássia sobre as novas estratégias que havia elaborado com a equipe de marketing. Ele tinha bons planejamentos, isso era inegável.
Jhon avaliava algumas anotações e, vez ou outra, olhava discretamente para os dois. Kássia estava sentada ao lado de Eduardo, descontente, mas ao mesmo tempo aliviada. Seria estranho sentar-se ao lado de Jhon depois do que havia acontecido.
Chegaram pela manhã. Estavam exaustos. Um carro foi buscá-los no aeroporto. Ao chegarem ao hotel, puderam descansar, já que a reunião seria às 11h do dia seguinte.
Foram até a recepção buscar as chaves, mas estava acontecendo um grande evento em Mumbai, e o hotel estava lotado. Por isso, Jhon, Kássia e Eduardo tiveram que ficar em uma suíte de alto padrão com três quartos.
Kássia ficou satisfeita… mas preocupada. Juntos poderiam trabalhar melhor e mais rápido, porém estariam mais próximos.
A suíte era luxuosa. Kássia ficou encantada. Esquecendo-se dos dois por um instante, entrou e começou a explorar cada canto. Jhon foi procurar seu quarto; escolheu o mais afastado do dela, para não ficar tão próximo. Eduardo pegou o quarto perto da entrada, e Kássia ficou com o do meio.
Descansaram e só apareceram na hora do jantar. Revisaram trechos das apresentações e depois desceram para o restaurante do hotel.
Havia pessoas de vários países, empresários e até figuras conhecidas. Eduardo foi se enturmar rapidamente, deixando Jhon e Kássia sozinhos à mesa.
— O Eduardo sempre é assim? — ela perguntou.
— Não. Às vezes é ainda mais insuportável — respondeu Jhon, beliscando a carne de carneiro no prato.
Kássia o observava discretamente. Ele sentia o olhar dela, mas evitava retribuir. Tinha medo de não conseguir se controlar.
— E a apresentação? Está se sentindo segura? — ele perguntou.
Ela ergueu o olhar.
— Não se preocupe. Eu não tenho só um rosto bonito.
Jhon a fuzilou com os olhos. Ela sorriu de leve.
Ele levantou-se de repente, segurou a mão dela e a puxou. O restaurante estava cheio; seria fácil sair sem chamar atenção, ainda mais com Eduardo de costas, entretido com uma modelo.
Entraram no elevador. Para a sorte deles, estava vazio. Mas havia câmeras.
Jhon soltou a mão dela e apertou um botão qualquer.
— Eu preciso de você…
Kássia respirava ofegante.
— Não podemos. Eduardo está aqui… e tem o nosso emprego.
— Eduardo não é o problema.
— E Glória? Eu preciso desse emprego.
O elevador parou em um andar que parecia o subsolo. Desceram.
O corredor estava quase vazio.
Jhon aproximou-se e a encostou suavemente na parede. Tirou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela.
— Eu nunca senti por ninguém o que sinto por você. Já estive em relacionamentos… mas nada se compara. Eu penso em você o tempo todo. Sabe quantas vezes subi ao seu andar só para te ver?
Kássia estava tentada. Mas se segurava. Não repetiria o que aconteceu em Roma.
Ele se aproximou e a beijou. Primeiro com cuidado, acariciando seu rosto. Depois, com mais intensidade.
Dessa vez, ela correspondeu.
O beijo foi profundo. Havia desejo, sim… mas havia algo maior ali.
Paixão.
E talvez… amor.
Eduardo acabava de voltar à sua mesa, mas estava inquieto. O restaurante continuava cheio, risadas ecoavam, taças tilintavam… mas Kássia e Jhon não estavam em lugar nenhum.
— Com licença, o casal que estava sentado aqui?
— Saíram há uns dez minutos.
O segurança apontou discretamente para o elevador.
— Não acredito… trabalhar essa hora? — murmurou Eduardo, semicerrando os olhos. — Aí tem coisa.
Ele caminhou até o elevador tentando parecer despreocupado, mas o maxilar estava travado. Apertou o botão do vigésimo segundo andar. Durante a subida, encarava o próprio reflexo no espelho.
As portas se abriram.
Corredor silencioso.
Carpete macio.
Nenhum som.
Ele abriu a porta da suíte. Escuro. Intacto. Nenhum sinal deles.
— Para onde vocês foram? — sussurrou, sentindo algo estranho no peito.
Voltar ao restaurante? Descer ao lobby? Ou…
Eduardo respirou fundo. Aquilo não era coincidência.
Sentou-se no sofá da suíte, pegou uma bebida no frigobar e ficou olhando para o celular por alguns segundos antes de digitar:
"Oi, Glória. Boa noite. Não sei se estão juntos, mas sumiram da minha vista."
Ele hesitou.
Depois enviou.
No outro lado da cidade, o celular de Glória vibrou sobre a mesa de vidro do escritório improvisado no hotel.
Ela já estava acordada.
Esperando.
As fotos impressas estavam espalhadas diante dela. Roma. A festa. O olhar de Jhon fixo em Kássia. A forma como ele a segurava pela cintura em uma das imagens ampliadas.
Não era imaginação.
Não era impressão.
Era envolvimento.
Glória leu a mensagem de Eduardo e seus olhos endureceram.
— Eu sabia… — murmurou.
As fotos do encerramento em Roma haviam sido tiradas por alguém que ela conhecia muito bem. O fotógrafo que trabalhara na empresa dez anos antes. O mesmo que confundira admiração com obsessão.
Ela lembrava do olhar dele quando o demitiu.
Ferido. Orgulhoso. Prometendo, em silêncio, vingança.
E agora as fotos tinham reaparecido.
Coincidência?
Glória não acreditava em coincidências.
Ela pegou o telefone fixo e discou um número que não usava havia anos.
— Quero saber onde ele está. Agora.
Se havia alguém armando algo… ela pisaria primeiro.
E, enquanto isso, em algum lugar do hotel, Jhon e Kássia ainda não faziam ideia de que não estavam sendo apenas observados…
Estavam sendo testados.

Jhon tocava Kássia com desejo contido.
Kássia entreabria os lábios com sede daquele beijo. O que antes era lento tornou-se intenso, quase frenético. Ela desatava os primeiros botões da camisa de Jhon, e ele retribuía com o mesmo toque urgente… mas, de repente, parou.
Afastou-se.
Respirou fundo.
Passou a mão pelos próprios cabelos, tentando recuperar o controle.
— Eu amo você… mas é melhor não.
As palavras saíram firmes, mesmo que o corpo dissesse o contrário.
Os dois se recompuseram em silêncio. Ele ajeitava o cabelo dela; ela fechava os botões da camisa dele com dedos ainda trêmulos.
Caminharam pelo subsolo até o final, de mãos dadas. Depois se soltaram.
Pegaram o elevador e foram até a entrada principal do hotel. Precisavam disfarçar. Então decidiram observar a estrutura do lugar, admirando as pinturas espalhadas pelos corredores e salões luxuosos.
Não eram os únicos ali. Havia outros hóspedes analisando as obras, conversando em diferentes idiomas.
Jhon permaneceu observando uma das telas, enquanto Kássia decidiu retornar para a suíte.
— Vocês me deixam sozinho lá no restaurante? — disse Eduardo, assim que ela entrou.
— Não tínhamos culpa, já que foi você quem nos largou primeiro. E parecia muito entretido na conversa com a senhorita esbelta.
Kássia colocou a chave sobre a mesinha e sentou-se na poltrona, cruzando as pernas com naturalidade calculada.
— E o Jhon?
— Estávamos olhando o hotel. Ele ficou observando as pinturas e conversando com um senhor que encontramos. Acho que é vendedor ou comprador de tecidos… não prestei muita atenção. Então resolvi me recolher.
Eduardo fingiu acreditar.
Kássia foi para o quarto, tomou um banho demorado — como se a água pudesse apagar o que ainda ardia na pele — e adormeceu.
Enquanto isso, Eduardo desceu novamente ao saguão principal.
Precisava confirmar.
O segurança confirmou que um casal estivera ali mais cedo, conversando e observando as pinturas.
— Estavam de mãos dadas? — perguntou casualmente.
O segurança hesitou.
Jhon estava indo em direção ao elevador quando viu Eduardo conversando com o segurança.
Algo não estava certo.
Eduardo não era curioso à toa.
Ao vê-lo se aproximar, Jhon desviou para uma entrada lateral que dava acesso à saída de serviço. Ficou ali, atento.
Assim que Eduardo entrou no elevador, Jhon foi direto até o segurança.
O homem parecia desconfortável.
Jhon foi direto:
— O senhor sabe que dar informações sobre hóspedes, em um hotel desse porte, é antiético.
O segurança engoliu seco.
Eduardo havia pago bem pela informação.
— Ele estava perguntando sobre o senhor… e sobre a moça de cabelos pretos. Queria saber onde estavam mais cedo… perguntou sobre as câmeras daqui.
O coração de Jhon acelerou.
Câmeras.
— E o que você disse?
— Só que vocês estavam observando as pinturas… nada demais.
Jhon assentiu.
— Não farei reclamação. Mas isso não pode se repetir.
O segurança concordou, visivelmente nervoso.
Jhon seguiu até o subsolo.
Havia câmeras ali.
Não exatamente onde tinham se beijado… mas talvez tivessem captado o momento em que estavam de mãos dadas.
— Será o fim se ele tiver acesso às gravações…
Precisava agir. Rápido.
Refazendo o caminho que havia feito com Kássia, voltou ao elevador.
As portas se abriram.
Eduardo estava saindo.
Os dois se encararam por um segundo longo demais.
— O que faz aqui no subsolo, Jhon?
— Respirando. Só respirando.
Entrou no elevador e subiu até a recepção.
— Boa noite. Gostaria de falar com a administração do hotel.
As recepcionistas trocaram olhares. O hotel estava cheio de empresários importantes. Uma reclamação naquele momento seria desastrosa.
— Antes de chamarmos a administração, talvez possamos ajudá-lo, senhor. Podemos resolver o problema?
Jhon sustentou o olhar.
Ele precisava garantir que aquelas imagens nunca saíssem dali.
E Eduardo… estava começando a jogar sujo.

A recepcionista telefonou para a administração, que pediu para Jhon comparecer às 9h da manhã no quarto andar.
Jhon agradeceu e pediu, com discrição, que não comentassem com mais ninguém. Disse que era um assunto pessoal que poderia prejudicar o hotel. As duas assentiram em silêncio e voltaram ao trabalho.
Quando chegou à suíte, Eduardo já havia se recolhido. Jhon fez o mesmo. Precisava descansar. O dia seguinte seria importante: apresentação, reuniões longas… e as câmeras para verificar.
Seria um bom dia. Ou um péssimo.
Acordaram cedo. Antes das oito, os três já estavam de pé, revisando arquivos.
Jhon estava em silêncio, concentrado demais.
Eduardo, como sempre, distribuía charme e comentários estratégicos para Kássia.
Ela, por sua vez, mostrava frieza. Falava apenas o necessário. Nada de intimidade. Nada de risadas. Apenas profissionalismo.
Desceram para o café da manhã.
— Esqueci meu celular na mesa — disse Jhon de repente. — Já volto.
Deixou os dois sentados e seguiu direto para a área administrativa.
No quarto andar, Jhon ouviu algo que o fez gelar.
— Um rapaz esteve aqui mais cedo — explicou o administrador. — Disse que fazia parte da segurança e precisava verificar as câmeras do subsolo. Quando fomos conferir… as gravações haviam sumido. Todas.
Jhon passou a mão pelos cabelos, tentando raciocinar.
— Não tem como saber quem era?
— Temos imagens dele entrando na sala de monitoramento. Mas estava com uniforme de segurança. Não dá para identificar com clareza.
Mostraram a gravação.
A estatura.
A forma de andar.
Semelhanças perigosas com Eduardo.
Mas havia outro detalhe: nas câmeras do corredor da suíte, Eduardo aparecia retornando ao quarto naquele mesmo horário.
Jhon sentiu o estômago revirar.
Se não foi Eduardo… então quem?
— Tudo bem. Obrigado — respondeu, tentando manter a compostura.
Saiu dali com mais perguntas do que respostas.
Quando voltou ao restaurante, Eduardo estava rindo, conversando animadamente.
Kássia mantinha a postura firme, educada, mas distante.
— Pegou o celular? — perguntou ela.
Jhon apenas balançou a cabeça e foi até a cafeteria. Pediu um café forte, sem açúcar. Bebeu ali mesmo, em pé.
As mãos estavam levemente trêmulas.
Kássia o observava de longe.
Ela conhecia aquela expressão.
Algo estava errado.
Eduardo também percebeu o olhar dela na direção de Jhon.
E sorriu discretamente.
Tinha algo entre os dois.
Disso ele não tinha dúvida.
E se havia algo… ele descobriria.

Como marcado, os três chegaram à Suryan Textiles Group, empresa interessada em se fundir com a Gloss Moda. O presidente havia visto a apresentação de Jhon e Kássia em Roma e, por isso, exigiu que fossem eles a conduzir a proposta na Índia.
A ideia de tecidos sustentáveis surgiu logo após o retorno de Roma. Trabalharam intensamente nesse projeto — e foi isso que os levou até Mumbai.
Durante a apresentação, explicaram a proposta, exibiram slides, desenhos técnicos e amostras. Enquanto falavam, Eduardo distribuía pequenos recortes do tecido para análise.
O presidente da Suryan observava atentamente.
— Quero uma nova amostra — disse ele por fim. — Mas com identidade indiana. Para homens, mulheres e crianças.
Era um teste.
Os dias seguintes foram longos. A empresa ofereceu suporte total: equipe de design, acesso a materiais, estrutura completa. Mesmo sob pressão, conseguiram desenvolver os modelos solicitados.
No décimo dia, estavam novamente na sala de reuniões.
Mas dessa vez não era apenas a equipe indiana.
Glória estava presente.
Surpresos, iniciaram a apresentação. Mostraram os desenhos, as texturas, as adaptações culturais.
Glória não sorria. Mas estava orgulhosa.
O acordo foi fechado.
A Gloss Moda agora tinha presença oficial na Índia.
Precisavam comemorar.
Mas Glória já tinha decidido que haveria conversa.
De volta a São Paulo, receberam um dia de folga.
A reunião de Kássia estava marcada para as 8h30.
Ela se arrumou como sempre. Pensava que seria uma reunião com as equipes.
Mas não.
Era apenas Glória.
Ao entrar no escritório, percebeu a formalidade.
— Bom dia, senhora Kássia. Sente-se, por favor.
Tão formal.
Glória fechou as cortinas.
Ligou o vídeo.
Sussurros.
A voz de Jhon.
O som dos beijos.
Kássia sentiu o rosto queimar.
— Pode parar.
Glória desligou.
Em seguida, colocou sobre a mesa as fotos de Roma: mãos dadas no corredor, entrada no quarto, Kássia segurando os sapatos pela manhã.
— Sei que é contra a empresa… — Kássia começou — mas nós nos amamos.
— Isso não é problema meu. Vocês trabalharam bem. Mas isso precisa acabar.
Ela deslizou um envelope sobre a mesa.
— Aqui está sua carta de demissão. Vocês assinaram uma cláusula antes de Roma. Não cumpriram.
O chão pareceu sumir sob os pés de Kássia.
Ela morava sozinha havia três anos. Conquistara tudo com esforço. Começou como estagiária, graças à Simone. Cresceu dentro da Gloss. Jogar tudo fora por uma paixão?
— Foi um momento de fraqueza — disse firme. — Bebemos vinho em Roma. Erramos.
Glória a encarou.
— E na Índia?
— Foi apenas um beijo. Não há nada sério. Não pretendo ter. Já fui noiva. Não confio em ninguém para me relacionar.
Silêncio.
— Ótimo.
Glória pegou outra folha.
— Aqui está sua passagem só de ida para a Índia. Você assumirá permanentemente a equipe de produção e marketing na nova unidade.
Kássia ficou imóvel.
— Arrume suas coisas. Em dois dias você embarca.
Glória virou as costas e atendeu o telefone.
Kássia saiu do escritório revoltada.
Cruzou com Jhon no corredor. Ele sorriu de leve, sem saber.
Entrou.
— Recebi sua ligação. Obrigada por dar uma chance à Kássia.
Jhon pegou o envelope da demissão.
Antes mesmo de abrir, já sabia.
— Estou apaixonado pela sua funcionária, Kássia Mello. Não sou homem de rodeios.
Glória cruzou as mãos sobre a mesa.
— Rolou algo que eu deva me preocupar?
— Sim. Mas ela deixou claro que não quer romance.
— E você?
— Eu a amo. E aceito minha demissão.
Glória ergueu uma sobrancelha.
— A cláusula é para os dois.
— Eu insisti. Eu a beijei. Eu a levei ao meu quarto. Se alguém precisa sair, sou eu.
Ele respirou fundo.
— Só aceito minha demissão se Kássia não for prejudicada.
— Você não está em posição de exigir nada.
— Na Índia não havia cláusula.
Silêncio.
Glória não tinha previsto isso.
Estava tão focada no fotógrafo que negligenciou a formalidade.
Ela o observou.
Não era impulso.
Era decisão.
— Tudo bem. Vou conversar com ela.

A Escolha
Kássia estava sentada na cadeira em frente à mesa de Simone, a passagem para a Índia ainda tremendo entre os dedos.
— Amiga, fiquei sabendo da sua promoção! — Simone sorria. — E com seu novo cargo na Índia, posso te visitar nas férias?
Kássia forçou um sorriso.
— Ai, amiga… eu não queria ir para a Índia. Por que ela não me deixa aqui?
— Então não vai. Pede para continuar no mesmo cargo. Mantém o salário que você vai ganhar lá na Group. Você é essencial para a empresa.
Kássia suspirou, abatida.
— Você veio saber onde vai ficar? — Simone continuou. — Eu já sabia da sua promoção ontem à tarde. E o Jhon também foi promovido… para Roma.
Kássia ergueu o olhar.
— Roma?
— É… mas acredita que ele pediu demissão? Veio hoje cedo pegar a carta e acertar as papeladas. Não sei o que aconteceu, mas ontem ele ficou mais de uma hora na sala da dona Glória. Saiu de lá estranho… triste. Achei que ele tivesse pedido para ficar aqui e ela não deixou. Aconteceu alguma coisa na Índia? Porque dois dias depois que vocês chegaram lá, a dona Glória viajou às pressas. Eu mesma organizei o hotel.
Kássia já não escutava o resto.
O coração batia tão forte que abafava qualquer som.
Jhon pediu demissão.
Por ela.
Sem dizer nada.
Ela deixou a passagem sobre a mesa de Simone e caminhou em passos firmes até a sala de Glória.
Entrou sem bater.
Glória estava com Eduardo, discutindo sobre fotógrafo, câmeras e vídeos.
— Então o Jhon pediu demissão para eu não ser demitida? É isso?
Glória odiava interrupções. Ainda mais daquela forma.
— Esse assunto já foi resolvido, Kássia. Pegue sua passagem e vá arrumar suas malas.
Kássia sentiu algo romper dentro dela.
— A senhora não manda mais em mim. Eu não sou mais sua funcionária.
Eduardo ficou em silêncio.
Glória estreitou os olhos.
— O que disse?
— Estou me demitindo. Fique com sua promoção, com suas cláusulas mal formuladas… Eu vou atrás do amor da minha vida.
Glória tentou interrompê-la, mas Kássia continuou:
— Eu menti. Eu disse que não queria nada sério. Mentira. Eu só estava com medo. Não imaginava que ele pediria demissão por minha causa.
A sala ficou em silêncio.
Sem esperar resposta, Kássia saiu correndo pelo corredor.
Talvez ainda desse tempo.
Talvez ele ainda estivesse ali.
Mas quando chegou ao décimo quinto andar… a sala dele já estava vazia.
A mesa limpa.
Sem fotos.
Sem blazer na cadeira.
Sem ele.
E, pela primeira vez, Kássia sentiu o verdadeiro peso de uma escolha.

Silêncios Que Gritam

Ela desceu correndo até a recepção.
— O Jhon saiu? — perguntou, ofegante.
— Saiu há uns vinte minutos. Levou as caixas. Disse que não volta mais.
Vinte minutos.
Vinte minutos que mudaram tudo.
Kássia saiu do prédio sem direção. Pegou o celular. Ligou.
Chamando.
Chamando.
Caixa postal.
Ela nunca soube onde ele morava. Nunca precisou saber. Sempre discretos. Sempre às escondidas.
E agora… não tinha nada.
Nenhum endereço.
Nenhuma certeza.
Nenhuma garantia de que ele ainda estivesse ali.
      Duas quadras dali
Jhon estava dentro do carro, estacionado.
O celular vibrava no banco ao lado.
O nome dela iluminava a tela.
Ele não atendeu.
Se atendesse, desistiria.
Se ouvisse a voz dela, voltaria.
E se voltasse… ela perderia tudo.
Fechou os olhos.
Bloqueou o número.
— É melhor assim… — murmurou.
Preferia ser o vilão da história dela do que o motivo da queda dela.


    Dias depois
Kássia estava no apartamento quando o telefone tocou.
Não era Simone.
Era Glória.
— A viagem para a Índia continua de pé, caso mude de ideia.
Kássia respirou fundo.
Não voltaria atrás.
Orgulho não pagava contas — ela sabia. Mas princípios eram mais caros.
Aquela cláusula absurda precisava acabar. Quem era Glória para regular sentimentos? A empresa era dela, mas os funcionários tinham coração.
Coisa que, ao que parecia, Glória tinha deixado de ter desde a viuvez.
Depois da ligação, Kássia tentou mais uma vez.
Chamando.
Chamando.
Bloqueada.
— Idiota… — sussurrou, sentindo os olhos arderem.
    
Do outro lado da cidade
Jhon estava sentado no escritório do seu apartamento.
O lugar era amplo, organizado, impessoal demais.
Cinza chumbo nas paredes.
Quadros modernos na sala.
O quarto, sóbrio e masculino.
Mas o escritório…
O escritório era outra coisa.
Sobre a mesa, fotos de Kássia.
Ele tinha pegado todas. Inclusive as que estavam com Glória. Até as imagens das câmeras.
No notebook, buscava oportunidades. Depois de Roma e da Índia, empresas estavam interessadas nele. Não seria difícil recomeçar.
Mas sua mente não estava ali.
Estava nela.
“Ela já deve estar na Índia…”
Essa ideia o corroía.
Imaginava Kássia caminhando por corredores estrangeiros, falando inglês com firmeza, crescendo.
Sem ele.
Ele queria desbloqueá-la.
Queria correr até o aeroporto.
Queria atravessar o mundo.
Queria abraçá-la.
Mas e se ela tivesse escolhido a carreira?
E se ele fosse apenas um capítulo impulsivo?
Jhon fechou o notebook.
Pela primeira vez em anos, o homem seguro e estratégico estava perdido.

O Homem Invisível
Eduardo estava cansado.
Cansado de ser sempre a segunda opinião.
Cansado de executar ordens.
Cansado de nunca ser visto.
Trabalhava para Glória investigando possíveis relacionamentos entre funcionários. A dona da Gloss Moda não admitia amantes dentro de uma empresa familiar e respeitável.
Mas o caso de Jhon e Kássia foi o limite.
Eduardo acreditou que, ao revelar o romance, finalmente seria reconhecido.
Talvez até ocupasse o lugar de Jhon.
Mas não.
Quem recebeu a promoção para escolher entre Roma e Índia foi Jhon.
E ele ainda teve coragem de abandonar tudo por amor.
Pedir demissão.
Por ela.
E Eduardo continuava ali.
Na terça-feira, estava sentado na cadeira em frente à mesa de Glória Fagundes, ouvindo-a falar sem parar.
— Precisamos mandar prender aquele fotógrafo! Ele está nos chantageando. Deve estar escondido, esperando o momento certo para atacar a empresa.
Eduardo escutava em silêncio.
Um antigo funcionário.
Apaixonado por ela — segundo a própria Glória.
Mas talvez fosse apenas mais um como ele.
Alguém que trabalhou demais, pediu reconhecimento… e foi descartado.
Glória continuava:
— E aquela Kássia… incompetente! Escolher um homem em vez da carreira. Amor deixa mulheres à beira da solidão. Homens traem ou morrem cedo.
Eduardo sentiu algo incômodo no peito.
Pela primeira vez, pensou em Jhon.
Pensou em pedir desculpas.
Mas antes precisava saber o que Glória tinha reservado para ele.
— Posso tentar descobrir onde o fotógrafo está — sugeriu. — Saber o que ele planeja.
Glória parou. Olhou para ele.
Mas o interesse durou segundos.
Ela desviou o assunto.
Eduardo tentou novamente:
— Já que o cargo do Jhon está vazio…
Glória o interrompeu.
— Vazio? Ele vai voltar para a empresa. Não tem opção. Recebi várias propostas sobre ele. É um excelente profissional. Está apenas confuso.
Confuso.
Eduardo entendeu.
Ele nunca seria a primeira escolha.
— Posso me retirar? — perguntou, seco.
— Pode.
Antes que saísse, Glória entregou-lhe um envelope.
— Não preciso mais dos seus serviços extras. Volte a se dedicar apenas ao marketing.
O dinheiro estava ali.
Pagamento pelo silêncio.
Pagamento pela vigilância.
Eduardo pegou o envelope e saiu.

Sentado no carro, respirou fundo.
Pegou o celular.
Ligou para Kássia.
— Vamos almoçar? Eu pago. Estou sempre livre para você.
Do outro lado, silêncio.
Ela não estava com vontade de responder.
Desligou.
Naquele momento, só uma coisa importava:
Encontrar Jhon.

O Confronto

A revelação no almoço deixou Kássia inquieta.
Não era só sobre ela.
Não era só sobre Jhon.
Era sobre controle. Manipulação. Medo disfarçado de disciplina.
Ela saiu do shopping com o coração pesado e foi direto para a Gloss Moda.
Entrou sem dificuldade.
Ainda tinha acesso.
Ainda pertencia ali.
Foi até Simone.
— E a Glória?
— Em reunião com a equipe de marketing e produção. E adivinha quem está lá…
Kássia não esperou o final da frase.
Caminhou pelo corredor com passos firmes.
Abriu a porta da sala de reunião sem bater.
Todos se viraram.
Glória estava sentada à cabeceira, observando uma apresentação.
Kássia não pediu licença.
— Eu descobri tudo.
O silêncio caiu.
— Como você foi capaz de separar eu e Jhon por causa do que aconteceu na sua vida pessoal?
Alguns funcionários trocaram olhares.
— Que culpa temos nós se o seu marido te traiu com uma funcionária? Acha que somos o quê? Peças de xadrez que você controla?
A voz dela tremia, mas não de medo.
De dor.
— Somos pessoas. Temos vida. Temos sentimentos. Sabemos separar o profissional do pessoal. Quem não sabe é você, criando uma cláusula ridícula para controlar o que acontece fora da empresa! E pior… usando funcionários como Eduardo e Marco para fazer o seu trabalho sujo!
Alguém segurou o braço dela.
Kássia se soltou.
Anos engolindo opiniões.
Dias engolindo silêncio.
Horas engolindo saudade.
— Você destruiu a minha vida porque não superou a sua!
Os funcionários começaram a sair, constrangidos.
A sala foi esvaziando.
Glória permaneceu em silêncio.
Quando a última pessoa saiu…
Ela se levantou.
Sem dizer uma palavra.
Passou por Kássia.
E saiu da sala.
A porta se fechou.
O silêncio ficou pesado.
Kássia respirava com dificuldade.
Então ouviu uma voz atrás dela.
— Você sempre foi impulsiva assim… ou é só comigo?
Ela congelou.
Virou lentamente.
Jhon estava ali.
De pé.
Olhando para ela.

Jhon não disse mais nada.
Apenas a puxou pela cintura.
E a beijou.
Lentamente.
Sem pressa.
Como quem recupera algo que quase perdeu.
Kássia retribuiu.
Ali, naquele silêncio carregado, ninguém ousaria separá-los.
Quando se afastaram, ele encostou a testa na dela.
— Me desculpa por não ter atendido. Até ontem eu achava que você tinha ido para a Índia. Não queria atrapalhar sua vida… nem ser o motivo de você desistir dos seus sonhos.
Ela o abraçou com força.
— E eu achei que você não se importava. Até ouvir o relato do Marco… e as confissões do Eduardo.
Ele fechou os olhos.
— Eu fui um covarde achando que estava sendo herói.
Voltaram a se beijar.
Mas Kássia se afastou de repente.
— E você voltou para esse inferno?
Jhon sorriu de leve.
— Glória insistiu. Disse que você tinha desistido da Índia. Que estava disposta a tudo pelo nosso relacionamento.
Ela arregalou os olhos.
— Ela disse isso?
— Disse. E hoje cedo a Simone me passou seu endereço. Depois da apresentação eu iria até lá…
Ele respirou fundo.
— Para me desculpar. E pedir que você fosse minha esposa.
O mundo pareceu parar.
— Mas você adiantou o pedido — ele completou, sorrindo.
Antes que ela respondesse, a porta da sala se abriu.
Os funcionários começaram a entrar.
Aplaudindo.
Alguns assobiando.
Outros emocionados.
Kássia levou a mão à boca.
Jhon segurou a dela.
Glória entrou logo atrás.
Ergueu a mão pedindo silêncio.
O ambiente ficou quieto.
Ela caminhou até a cabeceira da mesa.
Olhou para o casal.
Depois para todos.
— Durante anos eu confundi disciplina com controle. Confundi liderança com medo.
A voz estava firme. Mas diferente.
— A empresa é minha. Mas os sentimentos de vocês não são.
Ela pegou um envelope da pasta.
Retirou o documento.
A cláusula.
E rasgou.
Na frente de todos.
O som do papel se partindo ecoou pela sala.
— A partir de hoje, a Gloss Moda confia na maturidade de seus profissionais. O que acontece fora daqui é responsabilidade de cada um.
Os funcionários voltaram a aplaudir.
Glória olhou para Kássia.
— E quanto a você… ainda quero você na Índia. Mas agora será por escolha. Não por imposição.
Depois, virou-se para Jhon.
— E você nunca esteve demitido. Só precisava decidir se era homem suficiente para assumir o que sente.
Jhon apertou a mão de Kássia.
— Eu sou.
Glória assentiu.
E, pela primeira vez, parecia menos fria.
Talvez não tivesse deixado de ter coração.
Talvez só tivesse esquecido onde o guardou.
     Alguns meses depois, a Gloss Moda já não era a mesma.
A cláusula havia se tornado apenas uma lembrança amarga de um tempo em que o medo comandava mais do que a confiança.
Glória Fagundes mudou.
Não completamente — mulheres fortes não se desfazem assim — mas aprendeu que liderança não é controle, e que amor não é fraqueza.
Eduardo voltou ao marketing.
Marco seguiu com sua fotografia, agora longe de vinganças.
Simone continuava sendo o coração leve da empresa.
E Kássia…
Kássia escolheu.
Escolheu ficar.
Não por medo.
Não por orgulho.
Mas porque agora nada a impedia de amar e crescer ao mesmo tempo.
Jhon também ficou.
Recusou propostas internacionais. Não por sacrifício, mas por prioridade. Descobriu que sucesso sem quem dividir é só barulho.
O casamento foi simples.
Intimista.
Na presença de amigos e alguns funcionários que viraram família.
Quando perguntaram se aceitava Jhon como esposo, Kássia sorriu antes de responder:
— Aceito. Mas sem cláusulas.
Os convidados riram.
Jhon segurou seu rosto com carinho.
— Eu te escolho. Todos os dias.
E assim fizeram.
Não foi o fim de conflitos, nem o fim de desafios.
Mas foi o fim do medo de amar.
Porque, no final, empresas crescem, cargos mudam, promoções vêm e vão…
Mas o que sustenta qualquer império — seja empresarial ou emocional — é a coragem de escolher.
E eles escolheram um ao outro.


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