Entre pontes e Atrasos.


Sinopse:
  Zuleide, ou simplesmente Leide para os amigos, vive a rotina corrida de quem depende de ônibus, ponte e relógio para chegar ao trabalho todos os dias. Entre problemas no condomínio, atrasos constantes e o trânsito interminável entre o Rio e Niterói, sua vida parece seguir sempre o mesmo roteiro.
Até uma manhã comum mudar tudo.
     Ao perder o ônibus e embarcar no próximo, Leide acaba adormecendo durante a travessia da ponte. Sem perceber, encosta a cabeça no ombro de um desconhecido que também dormia ao seu lado. O que parecia apenas um pequeno constrangimento de viagem pode se tornar o início de algo inesperado.
    Entre encontros casuais, rotinas cruzadas e sentimentos que surgem quando menos se espera, Leide descobrirá que às vezes a vida muda justamente nos momentos em que tudo parece dar errado.

Capítulo 1: O Ônibus das Seis:
    Zuleide — mais conhecida como Leide — caminhava apressada.
— Vou chegar atrasada de novo — pensava.
     Andava rápido para atravessar a passarela. Não podia chegar ao escritório atrasada outra vez; já seria a terceira. Tudo por causa do encanamento do prédio. Já tinha falado com o síndico do condomínio, mas nada havia sido resolvido. Pensou que talvez fosse melhor fazer uma reclamação no grupo dos moradores. Assim, quem sabe, o problema da falta de água todas as manhãs finalmente seria solucionado.
  Quando chegou à passarela, o ônibus para Niterói já tinha passado.
Ela não acreditou.
Se tivesse sorte, outro passaria dali a quinze minutos.
   Reduziu o passo. Não precisava mais correr; já tinha perdido o ônibus das seis da manhã e, inevitavelmente, chegaria atrasada.
   Enquanto esperava, pegou o celular e colocou sua música favorita para tocar. Com o fone de ouvido, foi se acalmando.
    Depois de vinte minutos, o ônibus finalmente chegou.
     A parte boa era que ainda havia lugares para sentar. As cadeiras ao lado da janela, porém, já estavam todas ocupadas. Sentou-se no primeiro banco alto, perto da porta. Caso o ônibus enchesse, não teria dificuldade para descer.
Um rapaz dormia sentado.
Ela olhou rapidamente. Ele vestia uma jaqueta preta, calça jeans e uma touca. Leide deu uma risada discreta.
— Esse aí deve sentir muito frio — pensou.
     A viagem seria longa: cerca de uma hora e meia por causa do trânsito. Agora ela entendia por que o rapaz cochilava.
     Quando o ônibus atravessava a ponte, Zuleide também acabou adormecendo. Não tão discretamente quanto o rapaz ao lado, que permanecia encostado na janela, com a cabeça baixa.
Sem perceber, ela deixou a cabeça cair sobre o ombro dele.
E continuou dormindo.
   Depois que passaram pela ponte, Luís Felipe sentiu o ombro dormente. Um cheiro suave invadiu seu nariz — cereja.
    Olhou pela janela. O ônibus já se aproximava da universidade; logo precisaria descer.
Então percebeu algo estranho. O peso no ombro não era apenas cansaço. Ao olhar para o lado, viu alguns cabelos pretos escorrendo sobre seu ombro. A moça que estava ao seu lado havia adormecido ali.
Por um instante, ficou imóvel.
Se sua noiva visse aquela cena, seria difícil explicar.
     Tentou mover discretamente o braço, mas a moça continuava encostada nele, profundamente adormecida. Com cuidado, tocou levemente o ombro dela.
Leide despertou assustada. Ao perceber onde estava apoiada, arregalou os olhos e se afastou rapidamente.
— Desculpa… — disse, sem graça. — Que situação embaraçosa.
Ela se ajeitou no banco enquanto observava o rapaz guardar a touca e passar a mão pelos cabelos castanhos claros e lisos, tentando arrumá-los.
     Leide prendeu os cabelos em um coque rápido, espalhando ainda mais pelo ar o perfume do shampoo de cereja.
O ponto de Luís Felipe chegou.
E, para surpresa dos dois, também era o de Leide.
     Quando se levantaram ao mesmo tempo, acabaram esbarrando um no outro. Os fones de ouvido de ambos caíram no chão.
Já perto da porta do ônibus, os dois se abaixaram quase ao mesmo tempo.
— Desculpa — disseram juntos.
Luís Felipe pegou seu fone do chão. Leide fez o mesmo.
     Sem dizer mais nada, desceram do ônibus e seguiram em direções opostas.
Leide nunca costumava ser tão atrapalhada assim. Mas aquele rapaz havia conseguido deixá-la completamente sem jeito.
Atravessou a pista enquanto colocava o fone de ouvido. Porém, a música estava baixa e falhando.
    Pensou que talvez estivesse descarregado.
Guardou o aparelho na pequena bolsinha dentro da bolsa e seguiu para o escritório. Trabalhando na área administrativa há mais de dois anos, havia passado em um processo seletivo. O salário era bom.
   Mas, com tantos atrasos naquele mês, tinha quase certeza de que parte dele seria descontada no próximo pagamento.
  E aquele definitivamente não estava sendo um bom começo de dia.
     No escritório, Leide entrou discretamente, mas as meninas já estavam avisando que o dono da loja queria falar com ela.
Deixou a bolsa em sua sala e foi direto para a sala do seu Eduardo Guimarães, que parecia estressado. Ele olhou para o relógio.
Passava das 7h30.
— Meia hora atrasada de novo?
— Seu Eduardo, o ônibus não parou e estava engarrafado. Eu tentei sair mais cedo, porém…
— Se tivesse saído mesmo cedo, não estaria atrasada.
    Leide pediu desculpas e prometeu ficar até mais tarde, terminando o trabalho para não entregar nada em atraso. Na verdade, ela nunca tinha entregado nenhum documento fora do prazo, mas precisava dizer alguma coisa.
     Voltou para sua sala com alguns arquivos para revisar os documentos financeiros da empresa. Era uma empresa de peças para motos e carros. Vendiam e recebiam peças de fora, e Leide era responsável por analisar os preços, organizar tudo em planilhas e conferir os valores.
    Na hora do almoço, parou para comer junto com as colegas de trabalho. Seu Eduardo costumava almoçar em um restaurante próximo à loja, enquanto as meninas ficavam ali mesmo, em um pequeno refeitório.
Leide foi até a bolsa pegar o fone de ouvido para colocá-lo para carregar, já que a volta para casa seria longa.
Mas estranhou.
O fone não era o dela.
Colocou as mãos na cabeça.
     Ainda estava pagando as prestações daquele fone de ouvido sem fio. Além disso, era raro encontrar um modelo igual.
Suspirou.
    Decidiu não se estressar naquele momento. Vai que, na volta, encontra o rapaz do ônibus e ele devolva o fone.
     Colocou o aparelho de volta na bolsa e carregou apenas o outro par.
Retornou ao trabalho. Havia prometido ficar até 18h30, mesmo que o expediente terminasse às 17h00.
    Imprimiu algumas planilhas para a reunião de sábado, já que seu Eduardo iria viajar e queria tudo no papel. Ele não tinha muita paciência com coisas digitais. Era novo, na casa dos quarenta e poucos anos, um bom chefe — desde que ninguém chegasse atrasado.
    Depois de organizar tudo em uma pasta na sala dele, Leide pegou a bolsa e saiu da loja.
O porteiro estava esperando por ela para fechar.
— Desculpa — disse Leide.
    Mas havia prometido ficar até mais tarde e precisava cumprir. Caso contrário, na segunda-feira seu Eduardo certamente reclamaria.
   Antes de chegar ao ponto de ônibus, começou a garoar. Era aquela chuvinha fina que não molha de verdade, mas também não para.
Ela tinha esquecido o guarda-chuva na mesa do escritório.
Não voltaria para buscá-lo.
Já estava atrasada para encontrar Marcos, seu paquera. Eles estavam saindo há algum tempo, mas nenhum dos dois queria algo sério.
Leide preferia assim. Não queria um relacionamento em que tivesse que dar satisfação o tempo todo e se sentisse presa. Já tinha vivido algo parecido três anos antes e não queria repetir a experiência.
    Marcos também parecia pensar da mesma forma. Divorciado havia pouco tempo, tinha passado cinco anos casado, mas o relacionamento não deu certo e os dois decidiram se separar.
Eles haviam marcado às oito na pizzaria La Bonner.
     Provavelmente ela chegaria atrasada. Não daria tempo de passar em casa para se arrumar.
Por um momento pensou em cancelar. Mas, depois de uma semana intensa e de um dia estressante, precisava comer uma pizza e beber uma cerveja.
   Quando chegou ao ponto, viu o ônibus parado.
Olhou para o céu e agradeceu.
Pelo menos teve sorte.
E teria ainda mais sorte se encontrasse o rapaz dos cabelos claros.
Olhou para todos os lados do ônibus.
Nada.
Suspirou, frustrada.
    Teria que esperar até segunda-feira.
A ponte estava parada. Leide olhou para o relógio: já passava das 19h30. Não daria tempo de chegar à pizzaria.
Pegou o celular e mandou uma mensagem para Marcos:
— “Não vai rolar hoje. Fiquei presa no trabalho e, com essa chuva, só chego amanhã.”
Marcos visualizou a mensagem. Ele estava saindo do trabalho e indo direto para a pizzaria com alguns amigos e colegas.
— “Que pena! Estou indo agora com o pessoal. Então nos vemos depois.”
Leide suspirou, encostou no banco do ônibus e acabou cochilando.

Capítulo 2: A louca da moto.

   Chegou ao apartamento às nove da noite.

   Jogou a bolsa no sofá, tirou os sapatos perto da porta e respirou fundo, como se estivesse tentando deixar o cansaço do lado de fora. Desabotoou a blusa no caminho e foi direto para a cozinha, já imaginando o banho quente que merecia depois de um dia interminável.
Girou a torneira.
E não acreditou no que viu.
Nenhuma gota.
— Ah, não…
Ainda estava sem água.
    Leide encarou a pia por alguns segundos, como se o problema fosse se resolver sozinho. Depois soltou um suspiro pesado, daqueles que parecem carregar o peso de semanas. Estava cansada demais para reclamar, cansada demais até para se irritar do jeito que aquela situação merecia.
Pegou o telefone e mandou uma mensagem para a mãe.
— “Estou indo aí, mãe. Vou passar o fim de semana. Beijos!”
     A casa da mãe ficava a cerca de trinta minutos do apartamento. Na cabeça de Leide, aquilo era tudo o que ela precisava: um banho, comida quentinha e uma cama para dormir sem ouvir o barulho do condomínio e sem passar raiva com aquela administração incompetente.
     Passou pelo quarto, pegou a mochila que estava em cima de uma cadeira e começou a colocar algumas mudas de roupa dentro dela. Nem pensou muito. Pegou o básico: camiseta, calça, roupa íntima e uma toalha — porque, do jeito que as coisas estavam, nem toalha ela confiava que teria seca em casa.
     Trancou a porta com as chaves e seguiu pelo corredor silencioso, iluminado por lâmpadas frias que deixavam tudo ainda mais sem vida.
No caminho até o elevador, encontrou um inquilino que acabava de chegar do trabalho. Ele carregava uma sacola de supermercado e tinha o mesmo olhar de quem já estava acostumado a ser derrotado pela rotina.
Leide nem respirou direito antes de falar.
— Boa noite, vizinho. Estamos sem água de novo!
A voz saiu carregada de indignação.
O homem fez apenas uma expressão de desaprovação, como se já soubesse a resposta e nem valesse a pena reclamar.
— Isso aqui está ficando impossível… — ele murmurou.
Leide concordou com a cabeça, mais irritada ainda.
— Pagamos caro pra isso. Não dá mais um dia sem água. Não dá!
 Bb Ela parou perto do elevador com o celular ainda na mão, esperando a resposta da mãe. Nenhuma mensagem. Nada. Só o silêncio da tela e a sensação de que o universo tinha prazer em testar a paciência dela.
— Eu também não aguento mais — comentou, como se precisasse dividir a raiva com alguém.
     O elevador chegou com um “plim” metálico e ela entrou, apertando o botão da garagem. As portas se fecharam lentamente, e naquele momento Leide teve certeza de que estava fazendo a coisa certa.
  Se o condomínio quisesse continuar uma bagunça, ela não ficaria ali passando raiva.
     Quando chegou à garagem, encontrou sua moto no mesmo lugar. Pegou o capacete, colocou com rapidez e prendeu o fecho sem nem pensar. A moto era a única coisa que ainda fazia sentido na vida dela: pelo menos com ela.
    Leide não dependia do humor do motorista de ônibus, nem do atraso do trânsito… ou era o que ela gostava de acreditar.
Ligou a moto e saiu.
Mesmo sem resposta da mãe, foi.
    O trânsito estava lento… mas andava.
Leide, no entanto, estava sem paciência. Tudo nela pedia apenas uma única coisa: um banho, um jantar e uma cama. Era pedir demais? A cidade parecia dizer que sim.
   As buzinas se misturavam ao barulho do motor e aos pensamentos dela. Tentou passar entre um ônibus e um carro, mas foi fechada. Um palavrão quase escapou, mas ela engoliu junto com o orgulho. Logo à frente, alguns carros abriram passagem e ela aproveitou a brecha, desviando com habilidade.
   Atravessou pequenas frestas entre os veículos, sentindo o vento bater no corpo e o coração acelerar, como se a própria pressa fosse combustível.
Foi então que o telefone tocou.
Leide congelou por um segundo.
— Agora?!
   Aproveitou que os carros haviam parado por causa do sinal e tentou puxar o celular dentro da bolsa. Sua mão procurou o aparelho no escuro, tateando apressada, até que seus dedos finalmente encostaram nele.
Mas, no mesmo instante, um leve desequilíbrio.
Um movimento errado.
E o som seco do impacto.
CRAC.
   Ela sentiu o toque no guidão e, antes mesmo de olhar, já sabia o que tinha acontecido.
O retrovisor de um carro.
Leide fechou os olhos por um segundo.
— Meu Deus…
    O carro que a fechou, ela não teve culpa — mas sabia que também estava errada. Não era hora, nem lugar, nem segurança para atender telefone. Ainda assim, ela estava tão exausta que nem teve forças para discutir com o mundo.
Por sorte, não era um carro do ano.
Mas era um carro.
     E ela não queria prejudicar ninguém.
     O motorista buzinou, irritado, e outros carros também começaram a buzinar atrás. Leide olhou para os lados e viu que se parasse ali, iria travar ainda mais o trânsito. Respirou fundo e seguiu devagar, procurando um lugar seguro para encostar.
     Ela raramente atendia o telefone quando estava na moto. Quem estaria ligando àquela hora?
Só podia ser a mãe.
E se a mãe não estivesse em casa?
Só faltava isso.
Encostou mais à frente, já numa rua lateral. O carro antigo também encostou, tentando não atrapalhar mais o trânsito. Leide desceu da moto e fez sinal com a mão, indicando que pararia um pouco adiante.
O carro buzinou novamente.
Então, a porta do motorista se abriu.
E ele saiu.
    Leide riu da ironia do destino. Com o capacete rosa, só dava para ver seus olhos.
O rapaz, confuso, observava se ela estava bem. Resmungando e rindo daquele jeito, parecia que ela tinha batido mais que o retrovisor.
Era vergonhoso demais encontrar aquele rapaz pela segunda vez.
Ela não tiraria o capacete. Não daria esse gosto ao destino.
Com o capacete ainda na cabeça, Leide começou a falar:
— Senhor, desculpe o transtorno. Eu pago o retrovisor. É só me passar o número da sua conta.
Ela imaginava que sairia por menos de três mil reais. O carro era antigo e talvez fosse fácil encontrar a peça.
   Luís Felipe estava prestes a reclamar. O carro nem era dele — era dos pais da sua noiva. Ele estava levando o carro de volta, já que Suelen tinha deixado o veículo na casa dele na sexta-feira passada, depois de voltar do bar.
   Ele a havia levado para casa naquela noite. Ela tinha discutido com ele e bebido mais do que devia.
E o sogro tinha um ciúme enorme daquele carro clássico.
— Olha, moça… esse carro nem é meu. Esse é o problema. Se fosse meu, eu nem teria parado. Mas a senhora precisa parar de andar distraída com celular no meio da pista. Poderia ter acontecido algo pior…
Leide não acreditava.
Um sermão àquela hora, justamente daquele cara que ela jamais imaginaria reencontrar daquele jeito.
— Olha, senhor…
— Luís Felipe.
   Ele a interrompeu, se apresentando.
Leide olhou bem para ele. Sem aquela touca brega, até que ele era bonito.
— Seu Luís Felipe, já entendi. Eu pago, está bem? Agora me passe o número da sua conta.
Luís Felipe se perguntava se ela realmente entendia de carros clássicos, mas decidiu não prolongar aquela conversa.
Leide anotou o número da conta dele e também o celular.
Subiu na moto e foi embora.
Luís Felipe ficou olhando enquanto ela se afastava da chuva.
— Que louca… — murmurou.
   No meio de uma chuva daquelas, andando de moto, e nem teve a educação de tirar o capacete para falar com ele.
Pegou o celular e pesquisou rapidamente o preço do retrovisor original.
Suspirou.
Será que ela enviaria os três mil e pouco reais ainda hoje?
    Luís Felipe, estudante de medicina no último período, sabia que, com o dinheiro que recebia do estágio, levaria pelo menos três meses para juntar aquele valor.
Respirou fundo.
   Tinha perdido um dos fones de ouvido, quebrado o retrovisor do carro do sogro e agora estava ali, no meio da chuva.
   Definitivamente, a sexta-feira não estava indo bem.
Capítulo 3: Coincidências de Família.

  Leide chegou à casa da mãe e encontrou tudo fechado. Pegou o celular dentro da bolsa e viu a mensagem que havia chegado há pouco.
— “Saí com minhas amigas. Deixei a chave com a vizinha. Não me espere. Beijos.”
Sua mãe, dona Zélia, havia se separado fazia quase quinze anos. Desde então, parecia outra mulher. Passou a se cuidar mais, começou a frequentar aulas de zumba e yoga e fez novas amizades. As amigas acabaram se tornando quase uma segunda família, e elas costumam sair juntas com frequência.
Leide sorriu.
     Não teria comida quentinha esperando, mas pelo menos ali tinha água para tomar banho.
Foi até a casa da vizinha, dona Yara, uma senhora que havia se mudado para aquela casa há alguns meses. Sua mãe sempre falava muito bem dela. Pelo que lembrava, a dona Yara era viúva — ou talvez separada. Tinha um ou dois filhos: um era casado e morava no Recreio, e o outro, mais novo, morava com ela. Não sabia direito se era essa Yara, ou outra amiga, sua mãe falava tanto dos filhos das amigas que ela não lembrava muito, nem sempre prestava atenção nas conversas da mãe quando o assunto era juntar Leide com os filhos das amigas.
A sua mãe sempre comentava sobre um filho mais novo. Dizia que ele era lindo, solteiro, da mesma idade de Leide e estudante de medicina. Também vivia dizendo que não via a hora de ele encontrar alguém que prestasse.
Leide riu sozinha. 
Sua mãe tentando arrumar marido para ela em pleno século vinte e um, era bizarro.
Bateu na porta.
Quem abriu foi uma senhora que parecia jovem. A casa era grande. A antiga vizinha havia vendido o imóvel antes de se mudar para o Nordeste, para morar perto da família.
— Dona Yara? Eu sou a Zuleide, mas pode me chamar de Leide. Minha mãe deixou a chave aqui?
— Entre, minha filha. Meu filho saiu sem jantar, e eu estava jantando agora. Você aceita um pouco?
Leide agradeceu mentalmente pelo destino.
Talvez não tivesse comida preparada pela mãe, mas ainda assim não iria dormir com fome.
Ela só queria tomar um banho quente e dormir em sua antiga cama.
Deixou os sapatos molhados do lado de fora da casa, pegou a chave e disse:
— Vou só colocar a moto para dentro e tomar um banho. Depois aceitou jantar com a senhora.
Dona Yara sorriu.
Leide saiu da casa da vizinha mais tranquila e pensou consigo mesma:
— Filho ingrato… sair de casa e recusar jantar. Deve ser bem mimado.
Mal imaginava ela quem era esse filho.
  Leide entrou em casa e tomou um banho demorado. A água morna caía sobre os ombros e ela fechou os olhos por alguns segundos.
— Que delícia… — murmurou.
Sentia falta de um banho tranquilo assim.
Vestiu um vestido casual, simples e confortável. Como depois iria dormir, não precisava se arrumar muito para ir até a casa da vizinha. Também não queria impressionar ninguém — afinal, o filho de dona Yara nem estava em casa.
Bateu na porta.
De dentro, ouviu a voz da vizinha:
— Está aberta! Pode entrar, Leide!
Dona Yara estava esquentando a comida.
Leide agradeceu e começou a contar sobre o seu dia: falou do encanamento do prédio que o síndico nunca consertava, do atraso no trabalho e também do fone de ouvido que havia perdido na porta do ônibus.
Dona Yara escutava atentamente.
Quando Leide comentou sobre o fone, Yara pensou por um instante. Seu filho Luís Felipe tinha comentado algo parecido quando chegou da universidade mais cedo. Mas seria coincidência demais imaginar que fosse a mesma pessoa.
Leide ajudou a colocar a mesa. Como dona Yara já tinha jantado, sentou-se à mesa apenas para fazer companhia enquanto Leide comia.
A comida estava uma delícia: frango assado com batatas e arroz.
Na terceira garfada, dona Yara ouviu o barulho do portão.
— Deve ser o Luís Felipe — comentou.
Ele entrou em casa tirando os sapatos e desabotoando a camisa, claramente cansado.
Foi então que dona Yara gritou da cozinha:
— Filho, temos visita!
Leide, com a boca cheia, olhou na direção da sala. Estava de costas, então não viu quem era.
Quando se virou…
não acreditou.
Engasgou na mesma hora.
Dona Yara se assustou.
— Meu Deus! Luís Felipe, ajuda aqui!
Ele correu até ela, levantou Leide pela cintura e fez rapidamente a manobra para desengasgo.
Depois de alguns segundos que pareciam eternos, ela finalmente voltou a respirar.
Dona Yara trouxe um copo de água e entregou para ela, que agora estava sentada no sofá, ainda tentando se recuperar.
— Respira devagar, minha filha…
Quando a situação se acalmou, dona Yara sorriu e fez as apresentações:
— Este é o meu filho, Luís Felipe Guimarães.
— Filho, esta é a filha da Zélia: Zuleide, mas pode chamar de Leide. Só os mais íntimos usam esse nome.
Luís Felipe sorriu, incrédulo.
Leide também sorriu, mas com uma enorme vontade de sumir dali.
O destino definitivamente não estava bem. Leide levantou-se do sofá, já se despedindo, quando Luís Felipe olhou para a mãe e disse:
— Mãe, ela é a garota do fone que eu tinha comentado com a senhora hoje cedo, quando cheguei da faculdade. Espere um pouco.
Disse isso enquanto subia rapidamente as escadas.
Dona Yara pediu que ela se sentasse novamente e trouxe um copo de suco de uva.
Mas nada descia pela garganta. A vergonha era tanta que ela mal conseguia respirar direito.
Pouco depois, Luís Felipe desceu as escadas.
— Mãe, acredita que, quando eu estava indo à casa da Suelen devolver o carro do pai dela, uma louca de moto tentou passar entre os carros? Foi pegar o telefone e acabou quebrando o retrovisor do carro.
Leide agradeceu mentalmente por estar de capacete quando encontrou Luís Felipe naquela rua lateral.
— Meu Deus, filho! — disse dona Yara, levando a mão à boca. — Aquele carro clássico antigo que ele ama mais do que a própria filha?
— Esse mesmo, mãe. E o pior é que o retrovisor custa mais de três mil reais, sem contar o conserto, que deve ser bem delicado.
Leide fingia estar tão chocada quanto dona Yara.
— Meu filho… — disse ela, ainda impressionada. — E quem vai pagar isso tudo?
— Eu dei meu telefone para a moça e o número da minha conta. Com o dinheiro do estágio não tem como eu pagar. A Suelen fez um escândalo quando viu o retrovisor quebrado e acabamos brigando. Eu ia dormir na casa dela hoje, mas o clima ficou péssimo depois disso.
Leide ficou sem reação.
De onde ela tiraria mais de três mil reais, além do valor do conserto?
Luís Felipe então entregou o fone de ouvido nas mãos dela.
Dona Yara sugeriu:
— Filho, leve a Leide em casa.
Mas Leide insistiu que não precisava.
— Não se preocupe, é logo ali.
Luís Felipe não insistiu. Ela agradeceu e prometeu devolver o fone dele no dia seguinte, à tardezinha.
Em casa, sentada no sofá, percebeu que tinha perdido completamente o sono.
Pegou o celular e olhou o saldo da conta.
Trezentos reais.
Suspirou.
Na segunda-feira iria à loja onde trabalhava e veria se encontrava o retrovisor. Depois mandaria uma mensagem para Luís Felipe e tentaria resolver a situação.
Pensou no engasgo durante o jantar.
— Como alguém consegue quase morrer de vergonha justamente na frente da mesma pessoa duas vezes no mesmo dia? — murmurou.
Aquele rapaz definitivamente não lhe trazia sorte.
O melhor seria manter distância.
Subiu para o quarto. Tudo continuava exatamente igual. Mesmo depois de três anos morando em outro lugar, sua mãe mantinha o quarto como se ela ainda vivesse ali.
Abriu a janela para deixar o ar entrar.
E deu de cara com a janela do quarto de Luís Felipe.
Fechou rapidamente.
Tinha esquecido que costumava conversar com a antiga vizinha pela janela — às vezes até com a filha dela. Agora, quem estava ali era justamente ele.
Fechou a janela, ligou o ventilador e se deitou.
Precisava descansar e o destino com certeza estava se divertindo com os dois.
   Leide acordou às dez da manhã. Ainda sonolenta, ouviu a mãe cantarolando na cozinha enquanto descia as escadas.
— Mãe, por favor… menos. Estou péssima!
Zélia estava radiante. Parecia especialmente feliz naquela manhã.
— Tão nova e com esse péssimo humor — respondeu ela, rindo. — Vi sua moto no quintal. Você veio para cá à noite e ainda está na chuva? Quantas vezes já pedi para não vir de moto, principalmente à noite?
Zuleide estava cansada demais para ouvir sermão.
Precisava tirar aquela moto do quintal, mas colocaria onde?
Pensou rápido. Correu até o quintal, pegou um lençol e cobriu a moto.
Da janela da cozinha, Zélia observava tudo em silêncio. A filha claramente não estava bem.
Leide voltou para a mesa, sentou-se e começou a tomar café.
Enquanto isso, a mãe se arrumava para ir à aula de natação.
— Quer ir comigo? — perguntou Zélia.
Leide balançou a cabeça.
— Hoje não, mãe.
Ela pegou o celular e começou a olhar algumas fotos. Parou em uma publicação de Marcos.
Ele estava abraçado com outra pessoa.
Tudo bem que eles não tinham nada sério… mas, mesmo assim, aquilo a incomodou um pouco.
Depois de alguns segundos, resolveu mandar uma mensagem:
— “Bom dia. E aí, a pizza estava boa?”
  Marcos estava na academia, visualizou a mensagem, mas não respondeu, estava solteiro, e não queria compromisso, Leide também pensava dessa forma, não compreendeu aquela mensagem.
    Sentada no quintal, lendo um livro, Leide foi vista por Luís Felipe, que parou no portão.
— Bom dia, vizinha! Achei que você tinha ido à aula de natação com a minha mãe e a sua.
Leide deu graças a Deus por não ter ido. As duas juntas certamente estariam comentando sobre ela e o engasgo embaraçoso da noite anterior.
— Pensei em ir… mas quis colocar a leitura em dia.
Mentiu.
   Também não o convidou para entrar. A sexta-feira já tinha sido confusa demais, não queria complicar o sábado.
    Luís Felipe ficou parado no portão. Leide fingiu que não o via e continuou olhando para o livro — ou pelo menos tentando ler.
Até que ele percebeu algo coberto por um pano no canto do quintal.
Parecia… uma moto.
— Você tem uma moto?
Leide respondeu rapidamente:
— Não. Eu nem sei dirigir. É do meu pai… uma moto velha que ele largou aqui. Disse que vinha buscar, mas nunca veio.
    Luís Felipe ficou encabulado.
Até ali ela era apenas a garota do fone perdido. Mas ser também a louca da moto… aquilo parecia brincadeira do destino.
— Minha mãe disse que você chegou ontem por volta das nove, numa moto. Ela ouviu o barulho e…
— Está insinuando o quê?
Leide respondeu mais alto do que pretendia.
Luís Felipe ficou confuso.
— Nada… não quis ofender.
Leide respirou fundo, tentando se acalmar, e voltou a se sentar na cadeira.
  Quando percebeu, ele ainda estava ali no portão.
Será que ele não tinha nada para fazer?
De repente, Luís Felipe falou:
— Vai ter uma partida de boliche hoje. Você gostaria de ir?
    Leide murmurou algo quase inaudível.
Ele a observava, pensando que aquilo devia ser culpa da mãe dele. Dona Yara tinha dito que a filha da dona Zélia era um doce de menina.
Luís Felipe, na verdade, queria voltar para o quarto e estudar. Tinha prova na segunda-feira. Mas a mãe vivia reclamando que ele só pensava em estudo — e Suelen também brigava por causa disso. E dona Yara não gostava de Suelen.
Talvez sair um pouco evitasse mais reclamações.
— Não posso ir — respondeu Leide. — Tenho um encontro com meu namorado.
Luís Felipe sabia que ela não tinha namorado. Pelo menos era o que a mãe dela comentava: que Leide estava envolvida com um rapaz que não queria nada sério.
Ele não entendeu muito bem aquela história, mas decidiu não insistir.
— Tudo bem. Tchau, então.
Virou-se para ir embora, pensando que voltaria para o quarto, estudaria e depois diria para a mãe que a dona Leide, “doce de menina”, era bem grossa.
— Espera!
Leide levantou-se da cadeira e foi até o portão.
— Que horas?
Luís Felipe a olhou, surpreso.
— Talvez eu possa ir… dependendo do horário.
Ele murmurou, quase para si mesmo:
— Não acredito que ela aceitou…
Então respondeu:
— Às três da tarde eu passo aqui no portão.
Leide assentiu.
    E, pela primeira vez desde que se conheceram, os dois ficaram alguns segundos em silêncio, sem saber exatamente o que dizer.
      Na aula de natação, dona Yara comentava animadamente com Zélia sobre o que tinha acontecido na noite anterior.
Falou primeiro do engasgo de Zuleide durante o jantar e depois da chegada dela, tarde da noite, em plena chuva, de moto.
Zélia ouvia tudo com atenção.
— Eu sabia… — disse ela, balançando a cabeça. — Três anos atrás ela comprou essa moto. Desde então eu odeio quando ela sai com aquilo. Sempre acaba se metendo em alguma confusão.
Dona Yara então comentou sobre o retrovisor quebrado e o preço da peça.
— Luís Felipe disse que custa mais de três mil reais, imagine só!
Zélia arregalou os olhos.
— Mais de três mil? Não acredito! Se tivesse acontecido algo assim, minha filha teria me contado.
As duas ficaram alguns segundos em silêncio, pensando na coincidência das histórias.
Depois a dona Yara sorriu de leve.
— Engraçado como o destino aproxima as pessoas, não acha?
Zélia acompanhou o sorriso.
— Também acho… ainda mais quando são dois jovens solteiros.
As duas trocaram um olhar cúmplice.
— Quem sabe eles não acabam se entendendo? — comentou dona Yara.
Zélia riu.
— Pelo menos amizade já têm… afinal, já se encontram mais vezes em dois dias do que muita gente em um ano.
E, enquanto conversavam dentro da piscina, as duas já começavam a imaginar um futuro encontro entre os filhos — sem saber que o destino parecia estar trabalhando nisso muito antes delas.
Zélia chegou em casa cansada. Não iria fazer almoço; estava de dieta e uma salada seria perfeita.
Até que lembrou que a filha estava em casa.
Ao entrar na sala, viu Leide arrumando a casa.
Aquilo era estranho.
A filha só arrumava tudo daquele jeito quando estava nervosa ou ansiosa.
Zélia encostou na porta da cozinha e perguntou, sem rodeios:
— Filha… foi você que quebrou o retrovisor do carro da namorada do Felipe?
Leide largou a vassoura no chão e olhou rapidamente para a porta aberta, verificando se alguém poderia ter ouvido.
— Mãe! Como a senhora descobriu?
Zélia cruzou os braços.
— Arrumando a casa desse jeito? Eu te conheço.
Leide suspirou, pegou a vassoura novamente e continuou varrendo.
Olhou para a mãe, sem muita animação.
— Aceitei sair para jogar boliche com o filho da dona Yara. Nem sei por que disse que sim… acho que foi coisa do momento. Não pensei direito.
Zélia abriu um sorriso e abraçou a filha com entusiasmo.
— Vai mesmo! É bom sair um pouco.
Depois completou:
— E sobre o retrovisor… fale com ele. Melhor ele descobrir agora.
Ela se afastou e foi em direção ao banheiro.
— Vou tomar um banho.
Antes de entrar, ainda perguntou:
— E o dinheiro? De onde você vai tirar para comprar o retrovisor novo e pagar o conserto?
Leide correu até a porta do banheiro e respondeu quase em um sussurro:
— Mãe, fala mais baixo… eles vão ouvir!
Capítulo 4: O Beijo no Boliche
  Às 15 horas, Luís Felipe já chamava por ela no portão.
    Quinze minutos antes, ela já estava postada à janela da sala, observando o movimento lá fora e torcendo silenciosamente para que uma chuva forte começasse — qualquer coisa que o fizesse desistir da ideia. Mas, quando ouviu a voz dele chamando, percebeu que já era tarde demais.
      Ela vestia uma calça jeans escura e uma blusa de botões; levava uma bolsa e, lá dentro, um casaco estrategicamente guardado para o caso de sentir frio. Estava de tênis, com os cabelos soltos. Luís, por outro lado, parecia ter levado a sério a ideia do boliche — ou talvez a insistência da mãe para que ele se arrumasse mais tivesse surtido efeito. Vestia uma camisa polo azul, calça jeans preta e exibia o cabelo impecável, bem diferente dos fios lisos e rebeldes que costumava usar. Estava tão perfumado que o rastro de sua fragrância parecia entrar na sala, invadindo o espaço de Zélia antes mesmo de ela cruzar a porta.
     A mãe de Leide, Zélia, sentindo o aroma que entrava pela sala, olhou para a filha e disse de imediato:
— Muito cheiroso! Além de bonito, ele é muito cheiroso, filha.
Leide fez uma careta de deboche, revirando os olhos para disfarçar o nervosismo, e marchou em direção à porta. Não queria dar o braço a torcer, mas o comentário da mãe só tornava mais difícil ignorar a presença marcante de Luís Felipe lá fora.
    Assim que abriu a porta e o viu, Leide sentiu o próprio coração traí-la; ele parecia saltitar no peito ao encontrá-lo tão bem vestido. Dona Zélia, que não perdia um detalhe, apareceu logo atrás, reforçando o coro:
— Oi, meu filho, tudo bem? — perguntou ela com um sorriso acolhedor.
Luís Felipe acenou com a mão, sempre educado e mantendo a postura. Mas eles não eram os únicos espectadores daquele encontro. Do outro lado da rua, dona Yara observava cada movimento por trás da janela, com a curiosidade típica de quem não quer perder o início dessa história.

       Os dois caminharam em direção ao ponto de táxi mergulhados em um silêncio absoluto; nem mesmo o comentário banal sobre o tempo pareceu surgir para salvar o momento. Do táxi, seguiram direto para o boliche, localizado próximo ao shopping.
Zuleide nunca estivera ali. Ao entrar, a visão do movimento frenético e de tantos casais ao redor a fez se sentir subitamente patética por estar naquele "quase encontro". No entanto, logo tentou afastar o pensamento: era final de semana e ela merecia estar ali. Estava tão atolada em trabalho que há tempos não se permitia qualquer tipo de lazer, e aquele ambiente barulhento era o lembrete de que a vida acontecia fora de sua rotina.
      A música preenchia o ambiente, misturando-se aos sorrisos e aos gritinhos animados de quem conseguiu uma boa pontuação. Distraída pelo clima vibrante, Leide deixou escapar um sorriso, sem perceber que estava sendo observada.
Luís, que inicialmente aceitara o convite por insistência da mãe, sentiu algo mudar enquanto a olhava. Ela parecia uma pessoa genuinamente legal, e ele tinha a total certeza de que a beleza dela era incomparável. Ali, em meio ao barulho das bolas de boliche e das conversas ao redor, o que era apenas um compromisso começava a ganhar um novo significado para ele.
       O lugar transbordava animação, com pessoas rindo, jogando e conversando por todos os lados. Alguns grupos bebiam em mesas espalhadas pelo espaço amplo e, ao mesmo tempo, aconchegante. Não eram apenas casais; famílias inteiras e grupos de amigos marcavam presença, criando uma atmosfera vibrante. Leide estava genuinamente encantada, absorvendo cada detalhe daquela movimentação que era tão diferente de sua rotina de trabalho.
No entanto, distraída pela curiosidade enquanto caminhava e olhava ao redor, ela não percebeu a aproximação de um rapaz que cruzava o salão equilibrando uma bandeja carregada de cervejas.
      Ao virar o rosto, ela quase bateu com a bandeja. O garçom murmurou algo inaudível, provavelmente uma desculpa apressada ou um resmungo, mas Luís Felipe não deixou passar. Com uma expressão de clara desaprovação para o rapaz, ele reagiu rápido e a puxou pelo braço, trazendo-a para perto de si e livrando-a do impacto.
        Ela olhou para ele, surpresa.
— Obrigada.
     Ainda a segurando pela cintura, Luís Felipe sentiu a pele dela, suave e macia; foi como se aquele toque tivesse eletrizado todo o seu corpo. Leide, sentindo o impacto da proximidade, rapidamente se ajeitou, tentando recuperar a compostura. Um pouco sem graça, ele passou as mãos nos cabelos, disfarçando o nervosismo, e apontou para a mesa onde se acomodaram. Em silêncio, mas compartilhando o mesmo constrangimento, os dois seguiram juntos.
     Ao começarem a jogar, o clima mudou. Leide estava animada para experimentar o boliche, mas percebeu logo que Felipe levava a competição muito a sério. Ele acertava quase todos os lançamentos e, a cada pino derrubado, comemorava a pontuação com um entusiasmo que a deixava dividida entre a admiração e a diversão.
    A pontuação estava acirrada; Luís encontrara uma jogadora à sua altura, tão competitiva quanto ele. Ele ria, encantado com a atitude dela, percebendo como Leide ficava ainda mais linda quando relaxava e deixava de lado aquela máscara de seriedade.
    Foi então que, por cima do ombro dela, o olhar de Luís se perdeu. Ao longe, ele viu Suelen.
Ela estava abraçada a um rapaz, em uma intimidade que não deixava margens para dúvidas. O mundo ao redor pareceu silenciar por um segundo para ele. Leide, percebendo que o perdera para algum ponto fixo no horizonte, levantou-se e empurrou de leve o ombro dele, tentando trazê-lo de volta para o jogo.
— Minha vez!
Mas ele continuava parado, olhando fixamente para o casal à frente.
— O que foi? — perguntou Leide.
Então seguiu o olhar dele.
— Não me diga que aquela moça… é a sua noiva.
Suelen, ainda abraçada ao rapaz, virou o rosto e viu Luís Felipe.
Ele olhou para Leide.
— Me desculpe… mas eu preciso fazer isso.
Antes que ela pudesse entender, ele segurou sua cintura com firmeza, aproximou o rosto e a beijou.
O beijo foi rápido.
Mas então ele a puxou de novo e a beijou outra vez.
    Zuleide ficou completamente sem reação.
Não acreditava no que estava acontecendo.
Mas, para sua própria surpresa, seus lábios corresponderam ao beijo.
     Suelen não acreditava no que via.
Ele, que vivia dando desculpas de que precisava estudar, estava ali com uma garota aos beijos, enquanto ela precisava implorar por atenção.
Largou o rapaz com quem estava e foi até Luís Felipe, furiosa.
Ao se aproximar, deu um tapa no rosto dele.
— Acabou! Não quero mais te ver! E pode pagar o conserto do carro do meu pai!
Leide observava a cena em silêncio. Seus lábios ainda estavam dormentes por causa do beijo. Mesmo fingindo que nada tinha acontecido, seu rosto deixava claro que tinha acontecido, sim.
Luís Felipe olhou para ela e, mais uma vez, pediu desculpas.

Capítulo 5: O Senhor Cereja
Os dois saíram do boliche e caminharam um pouco pelo shopping, em silêncio.
Não havia muito o que dizer.
Leide estava chateada.
Nunca tinha sido usada daquela forma.
Mas, no fundo, não se arrependia do beijo.
Ela tinha gostado.
Luís Felipe também caminhava em silêncio. Pensava em como aquele beijo, que tinha sido apenas uma forma de causar ciúmes, tinha significado muito mais para ele.
Seus lábios ainda lembravam os dela.
E todo o seu corpo desejava ficar perto dela outra vez.
Mas como poderia fazer isso…
depois do que tinha feito?
  Eles passaram em uma loja de doces, e ele comprou dois copos.
Luís Felipe sentiu novamente o cheiro de cereja que estava no ar. Aquele aroma ficou ainda mais intenso quando ele a beijou no boliche. Era o mesmo cheiro que ele tinha percebido na tarde de sexta-feira, na faculdade.
Para quebrar o silêncio, perguntou:
— Você trabalha ou estuda em Niterói?
Leide deu uma colherada no doce antes de responder.
— Trabalho. Terminei a faculdade há quase dois anos. Não tinha conseguido emprego por aqui, então uma colega me escreveu falando de uma vaga lá. Fiz o processo seletivo e passei. Estou lá até hoje.
Interessado, ele percebeu que ela não era tão grossa quanto parecia. Na verdade, era linda e conversava de forma espontânea, sorrindo sempre que falava do trabalho.
— Você faz faculdade de quê? — perguntou ela, olhando fixamente para ele.
— Medicina. Me formo no próximo período.
Ela abriu um sorriso.
Um médico daquele… as pacientes iriam à loucura.
— Qual o motivo do sorriso? — perguntou ele, curioso.
— É que você é bonito. Vai ter filas de pacientes no seu consultório.
Ele pegou o doce da mão dela e a olhou com atenção.
— Você estaria nessa fila?
Leide engoliu em seco.
Então ele se aproximou e a beijou novamente.
Dessa vez foi um beijo leve, mas cheio de sentimento.
 Depois, deram mais uma volta pelas lojas.
     Leide ficou fascinada diante de uma loja de pelúcias. Seus olhos pararam em um travesseiro em formato de cereja para casal. Ficou ali, olhando de longe pela vitrine.
Enquanto isso, Luís Felipe observava alguns perfumes de cereja. Aquele cheiro estava se tornando seu favorito.
Disfarçadamente, olhou para ela, ainda encantada com a pelúcia.
Sem pensar muito, ele segurou a mão dela e entrou na loja. Pegou a pelúcia e levou até o balcão.
A atendente olhou para os dois e sorriu.
— Que casal bonito…
Leide ficou envergonhada. Não pelo comentário, mas por ele ainda estar segurando sua mão.
Saíram da loja de mãos dadas, e então ele entregou a pelúcia.
— Para você.
— Os dois?
— Não… a cerejinha fica comigo, para eu lembrar do dia de hoje. E o senhor cereja fica com você… caso sinta saudades de mim.
Leide sorriu.
Ele se aproximou e a beijou de leve nos lábios.
Saíram do shopping e ele a deixou em frente à casa dela. Na despedida, veio outro beijo…
dessa vez mais demorado.
Na janela, dona Zélia observava tudo. Empolgada, tirou uma foto e enviou para dona Yara com a legenda:
— “Nosso mais novo casal favorito.”
Yara respondeu imediatamente com vários corações.
Leide entrou em casa abraçada ao senhor cereja, que mal cabia em seus braços.
— E essa cereja, Leide? — perguntou a mãe.
— Um presente de um amigo.
Foi para o quarto, colocou o novo companheiro na cama e sorriu.
Que sábado…
Que beijo…
Que homem era aquele?
Deitou-se e abraçou a cereja com força.
Luís Felipe abriu a porta de casa, mas dona Yara já o esperava.
— Filho, me diga… vocês estão juntos?
Ele entrou segurando a sua cerejinha, jogou-se no sofá e tirou a camisa. Sorriu de canto, pegou uma garrafa de água, bebeu e subiu para o quarto.
Não respondeu.
Ia deixar a mãe curiosa… por enquanto.
No domingo, Luís ficou estudando. Tinha prova prática.
Yara insistiu para que ele fosse até a casa de Zélia no lanche, conversar com Leide, mas ele recusou. Precisava focar.
    Zuleide aproveitou e saiu cedo. Pegou a moto e foi embora antes que precisasse explicar que a “louca da moto” era ela.
Segunda-feira.
Tudo de novo.
    Acordou às cinco da manhã. Não queria ouvir reclamação por atraso.
Tomou banho — finalmente tinha água —, pegou uma torrada e saiu apressada. Mas, ao chegar na passarela, percebeu:
esqueceu o celular.
   Voltou correndo. Subiu pelo elevador, entrou no apartamento e pegou o telefone.
Olhou o relógio: 5h45.
Daria tempo.
Ou quase.
   Quando chegou à passarela, o ônibus já estava passando.
Tentou correr.
Em vão.
    Resmungou algumas palavras que, com certeza, dona Zélia mandaria ela lavar a boca com sabão.
Às 6h15, o ônibus veio. Estava lotado.
Ficou em pé até que o viu.
Touca ridícula.
Jaqueta preta.
Encostado na janela.
A mochila ocupava o banco ao lado.
Como se o lugar fosse… dela.
Leide sorriu e sentou.
— Bom dia, Leide.
Ela pegou o fone do bolso.
— Esqueci de te entregar.
Ele pegou, se inclinou para beijá-la…
Mas ela virou o rosto.
— Sábado foi bom… mas é melhor pararmos por aqui. Eu estou com o Marcos.
Ele não insistiu.
  cochilando. O trânsito estava horrível — chegaria apenas no segundo tempo.
Leide olhou para ele, incrédula.
Como alguém conseguia dormir daquele jeito?
Vinte minutos depois… era ela quem estava deitada no ombro dele.
O ombro de Luís já começava a ficar dormente, mas ele não se mexeu.
O cheiro de cereja invadia seu nariz.
Olhou para o lado.
Ela estava ali, aninhada nele.
Com cuidado, pegou o celular do bolso e tirou uma foto.
Dessa vez, não iria acordá-la como da outra vez.
Ia deixar que dormisse.
Quando o ônibus chegou ao ponto, ele deu o sinal e a chamou com a voz baixa e tranquila:
— Leide… chegamos.
Ela abriu os olhos, meio perdida, e logo ficou sem graça.
Será que tinha roncado?
Desceram juntos, sem pressa.
— Bom trabalho, Leide — disse ele, olhando para ela.
— Obrigada… bom estudo para você.
Seguiram em direções opostas.
Mas, depois de alguns passos, os dois olharam para trás ao mesmo tempo.
E sorriram.
Leide chegou atrasada. Levou uma bronca.
Mas, ainda assim… estava feliz.
Luís Felipe tinha deixado tudo mais leve.
Mesmo fingindo não querer aquele beijo, sabia que queria desde o momento em que se sentou ao lado dele.
Mas não quis prolongar algo que não entendia.
Ele ainda precisava se resolver com a namorada.
E, se eles voltassem…
Leide não queria sofrer.
Não queria se entregar a algo incerto.
   Chegou atrasado. A aula prática já tinha começado, e sua dupla o esperava para a apresentação.
O jeito era tentar sair mais cedo nos próximos dias, mas estudava até tarde e acabava perdendo a hora.
— Pô, cara, estou te esperando há mais de uma hora! A professora já veio aqui, e eu disse que ainda faltavam alguns ajustes.
Luís pegou as anotações e começou a organizar a apresentação, explicando cada parte do desenvolvimento da pesquisa e a análise dos dados.
Quando a professora chegou à dupla, eles iniciaram. Luís Felipe estava empolgado. Explicava com segurança, mostrava exemplos da pesquisa, enquanto o colega complementava com informações e pontos que haviam desenvolvido juntos.
Ao final, veio a nota:
9,5.
A média era 10.
Para qualquer um, seria excelente.
Mas, para Luís Felipe… não era o suficiente.
Ele queria o dez.
Mesmo assim, não reclamou.
O dia tinha sido bom.
Muito bom.
Só faltava uma coisa…
Leide aceita ficar com ele.
Mas, antes disso, precisava resolver algo pendente.
Conversar com Suelen.
Saiu da faculdade e foi direto para o estágio, ali mesmo perto.
Na pressa, nem teve tempo de almoçar. Comeu apenas um lanche que dona Yara tinha preparado.
Saiu do estágio às 18h30, exausto.
Mas uma coisa o animava:
Torcia para pegar o mesmo ônibus que Leide.
Quando chegou ao ponto, havia uma fila enorme.
E lá estava ela.
Com os cabelos soltos — provavelmente tinha acabado de soltá-los, pois ainda havia a marca do elástico. Os lábios tinham um leve brilho, e, com os fones no ouvido, ela balançava a cabeça no ritmo da música.
Luís Felipe ficou encantado com a cena.
Ela era linda.
Guardou aquele momento na memória, como se quisesse revisitá-lo nos dias difíceis.
O ônibus chegou, e todos entraram, tentando se acomodar.
Ela não encontrou lugar na frente e foi para os bancos de trás. Por sorte, ainda havia um lugar livre, e ela se sentou.
Procurou por ele na fila… mas não o encontrou.
Olhou pela janela.
E então o viu.
Ele ainda estava subindo.
Rapidamente, pegou a bolsa e colocou no banco ao lado.
As pessoas que se aproximavam, ela avisava:
— Estou guardando para alguém que já está vindo.
Quando Luís Felipe chegou, ela tirou a bolsa.
Os dois sorriram.
O motorista seguiu viagem.
Leide se aproximou um pouco mais e tirou um dos fones de ouvido, entregando a ele.
Os dois passaram a ouvir juntos.
Era “Amor de Dois Verões”, da banda Milagres de Amor.
Ele não gostava muito de músicas românticas. Preferia algo mais agitado.
Mas aquela…
Era diferente.
Porque ele estava ouvindo com ela.
Luís, escutando a música, perguntou a Leide:
— Quer jantar comigo quando chegarmos?
Ela fez uma carinha de cansaço.
O corpo pedia cama, comida pronta… e mais cama.
Mas ela tinha voltado para o apartamento — ela mesma teria que fazer o jantar.
Luís percebeu o desânimo no rosto dela.
— Voltou para o apartamento?
Leide apenas balançou a cabeça.
Ele entendeu na hora.
— A gente deixa para outro dia. Perguntei sem pensar… nem sabemos que horas vamos chegar.
    O ônibus seguiu, e, ao chegarem na ponte, o trânsito surpreendentemente fluía bem.
Leide encostou a cabeça no ombro dele… e adormeceu.
Enquanto isso, Luís aproveitava para revisar a matéria.
Quando chegaram ao destino, ele a chamou com cuidado:
— Leide… você desce aonde?
Ela ainda parecia meio sonolenta.
Já tinham passado do ponto onde Luís costumava descer.
Ele decidiu na hora:
— Vou deixar você em casa.
Leide o olhou com certa dúvida, mas não discutiu.
Desceram juntos.
Subiram à passarela conversando sobre assuntos leves — faculdade, festas, amigos.
Quando chegaram ao prédio dela, ela virou-se:
— Quer subir?
Luís hesitou.
— Não precisa…
Já passava das nove da noite.
Mandar ele embora àquela hora, sem jantar, parecia errado.
Leide sorriu de leve.
— Vamos comer uma pizza. O que acha?
Disse isso enquanto entrava no elevador.
Luís Felipe não recusou.
Estava com fome.
O apartamento dela era pequeno, mas bem organizado.
Luís observava tudo com atenção — cada detalhe, cada canto.
Por um momento, pensou em como seria morar sozinho.
Mas logo afastou a ideia.
Não deixaria a mãe sozinha.
    Leide entrou no apartamento e foi direto acender as luzes.
— Fique à vontade — disse, meio sem graça.
Luís entrou devagar, observando o ambiente.
Simples, organizado… com a cara dela.
— Pode sentar — completou ela, indo em direção à cozinha. — Vou ver a pizza.
Ele caminhou pela sala com calma, olhando os detalhes. Um porta-retrato, alguns livros, uma manta dobrada no sofá…
Foi quando seus olhos pararam.
No canto da sala, próximo à porta do quarto…
um capacete rosa.
Luís franziu a testa.
Deu dois passos à frente.
Reconheceria aquele capacete em qualquer lugar.
— Leide… — chamou, com a voz mais baixa.
Ela, que estava mexendo no celular para pedir a pizza, congelou por um segundo.
— Oi?
Ele pegou o capacete nas mãos e girou lentamente.
— Esse capacete…
Silêncio.
Leide fechou os olhos por um instante.
Não tinha mais como fugir.
— É meu.
Luís soltou um leve riso, sem humor.
— Então… foi você.
Ela respirou fundo e se virou para ele.
— Olha, eu ia te contar…
— A “louca da moto” — interrompeu ele.
Leide cruzou os braços, já na defensiva.
— Olha aqui, eu não sou louca. Foi um acidente!
— Um acidente que vai me custar mais de três mil reais — respondeu ele, ainda segurando o capacete.
— Eu já falei que vou pagar!
— Com o quê, Leide? — ele perguntou, olhando diretamente para ela.
Silêncio.
Ela desviou o olhar.
— Eu… vou dar um jeito.
Luís passou a mão no rosto, respirando fundo.
— Você mentiu pra mim.
— E você me beijou pra fazer ciúmes na sua ex! — rebateu ela, sem pensar.
O clima mudou na hora.
Os dois ficaram em silêncio.
A tensão no ar era clara.
Leide respirava mais rápido.
Luís a encarava.
— Não foi só por isso — disse ele, mais baixo.
Ela levantou os olhos.
— Então foi por quê?
Ele deu um passo na direção dela.
— Você sabe.
O coração dela acelerou.
— Eu não sei.
Ele se aproximou mais.
— Sabe, sim.
    Por um segundo, o assunto do capacete, da moto, do dinheiro… tudo desapareceu.
Ficaram apenas os dois.
Muito próximos.
Ele a puxou pela cintura e a beijou com intensidade.
Leide não se afastou.
Seu corpo reconhecia aquele toque… como se já o esperasse.
O beijo deixou de ser impulso e virou desejo.
Calor.
Entrega.
     As mãos dele a seguravam com firmeza, enquanto ela se aproximava ainda mais, como se não houvesse espaço suficiente entre os dois.
Tudo aconteceu rápido.
O mundo ao redor pareceu desaparecer.
O sofá ali, tão perto… foi o suficiente.
     Entre respirações descompassadas, olhares que diziam mais do que palavras e toques carregados de sentimento, eles se entregaram ao momento.
Como dois amantes que, mesmo sem perceber, já vinham se encontrando muito antes daquele instante.
    E, naquela noite, Luís Felipe decidiu que não havia mais espaço para Suelen em sua vida.
Era Leide.
Era com ela que ele queria compartilhar seusdias… sua vida.
Leide olhou para aqueles olhos castanhos e teve a certeza de que ele era muito mais do que imaginava.
Sem medo, sem reservas…
deixou que ele entrasse em seu coração.
E, pela primeira vez em muito tempo,
permitiu-se viver aquela paixão por inteiro.

Capítulo 6: Fantasmas do Passado:






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