Entre o peso das promessas - parte 2




Capítulo 6 – A Investigação Começa

Sandra estava tomada nos braços de Alexandre Tavares. Mais uma vez, a paixão foi eloquente. Ele tinha total domínio sobre seu corpo, e isso era suficiente para Sandra amá-lo. Aquela noite foi intensa, repleta de momentos de pura entrega.
Ele disse que a amava, mas também revelou que era um agente infiltrado. E foi só isso, nada mais. Prometeu que sempre que pudesse estaria em seus braços, mas também estaria envolvido no trabalho.
Pela manhã, Sandra acordou com o celular apitando. Era uma mensagem de texto. Olhou para o lado da cama e ele já não estava. Virou-se, encarou o teto e, decidida, pensou que queria o marido — não um agente, segurança ou seja lá o que ele fosse.
— Preciso de respostas.
Abriu o celular e leu a mensagem:
"Bom dia, meu amor. A noite anterior foi perfeita. Se eu soubesse que nossos corpos se completam assim, teria feito muito mais amor com você. Teria sido louco na nossa lua de mel, e antes dela também. Mas fui respeitoso e sei que teremos tempo para nos entregar um ao outro. Desculpa não te acordar para me despedir, você dormia tão bem que seria maldade te acordar. Deixei seu café pronto, se alimente por mim. Te encontro em breve. Ah, virá uma senhora para trabalhar na nossa casa, recomendação da minha mãe. Ela disse que, como trabalhamos muito, não teremos tempo para as tarefas domésticas, então recomendou Dona Joana. Não sei muito sobre ela, mas espero que vocês se deem bem. Te amo. Todo seu, Alex."
Sandra leu e releu aquela mensagem. Riu ironicamente. Ele achava que estava viajando a trabalho — não um trabalho simples, mas algo do qual talvez nem voltasse com vida. A cicatriz nas costas dele indicava, com quase certeza, que havia sido atingido por uma bala, ainda que de raspão. Mas Alex não entrou em detalhes, nem confirmou nada; apenas mudara de assunto.
Levantou-se às pressas da cama. Precisava dar um jeito na casa — não queria que Dona Joana a achasse relaxada.
Passou rapidamente o aspirador, trocou os lençóis da cama e colocou as roupas na máquina.
Tomou banho e sentou-se para tomar café. Assim que se acomodou, a campainha tocou.
— Oi, sou Joana.
Senhora? Que senhora? Era uma mulher que parecia ter a mesma idade que Sandra — jovem e bonita.
— Então você veio por recomendação da minha sogra?
— Sim. Minha mãe trabalha na casa dos Tavares há anos, e fui recomendada para lhe fazer companhia, cuidar da casa e, mais para frente, dos seus filhos.
Sandra sorriu, pensando que até lá talvez nem estivesse mais casada.
— Olha, senhora Joana...
— Senhorita!
— Desculpe, senhorita. Eu agradeço seus serviços, mas no momento não estou precisando. Quando eu tiver um bebê, procuro você...
Sandra teve uma ideia repentina. Talvez ela fosse útil.
— Desculpe minha falta de educação. Claro, pode entrar. Sou organizada, mas posso precisar dos seus serviços de vez em quando.
Sandra estava de licença por causa do casamento. Só ela sabia que o esposo viajava; para os pais, ele estava em casa, curtindo a lua de mel. Eram quatro meses de férias. Dois já haviam passado; restavam dois meses. Pouco tempo para descobrir em que assuntos seu marido estava envolvido.
— Joana, você sabe qual é o apartamento do Alexandre Tavares, meu esposo? Ele foi para a empresa logo cedo e me pediu para passar lá, mas acabou levando a chave.
— Desculpe, senhora, mas não sei de nenhum apartamento do senhor Tavares.
Seria inútil. Provavelmente ele nunca comentara com a família ou empregados sobre o tal apartamento.
Sandra apresentou a casa e mostrou os quartos dos fundos. Era grande demais para duas pessoas: três quartos, sala ampla, cozinha, dois banheiros, uma suíte do casal e varanda com piscina. Mesmo assim, ela se sentia pequena naquele espaço imenso.
Deixou Joana se familiarizar com a casa e foi para o quarto. Pegou o notebook e começou a pesquisar apartamentos na região. Algum ele deveria ter comprado.
Passou a manhã ligando e enviando mensagens, marcando visitas. Dizia que era corretora e precisava verificar os imóveis disponíveis. Mas, quando perguntava sobre apartamentos já vendidos ou alugados, ninguém podia informar o nome do inquilino.
Enfim, perda de tempo.

Capítulo 7 – O Irmão Errado

Joana a chamou para almoçar.
— Senhora, e o seu Alex?
— Ele me ligou e disse que voltará mais tarde. Ocorreu um problema. Vamos fazer uns combinados: como estou em lua de mel, você não precisa vir por enquanto. Mas, quando eu retornar ao trabalho, poderia vir de quinze em quinze dias?
— Claro! Vou deixar meu contato, caso precise antes. Já que ainda estão de lua de mel, vou voltar para o apartamento do senhor Aron.
— O irmão do meio do Alexandre?
— Sim. Eu estava trabalhando lá quando me recomendaram vir para cá.
Sandra sabia que Aron era a pessoa ideal para conversar. Ele saía muito, provavelmente tinha alguma informação.
— Poderia me passar o número do Aron? É que não tenho o contato dele e, caso você não atenda, ele pode atender.
— Olha, senhora, acho difícil ele atender o telefone, já que anda mais nas farras do que com o celular na mão.
Sandra insistiu, e Joana acabou passando o número de Aron Tavares.
Depois de organizar tudo, Joana foi embora. Sandra estava sozinha novamente naquela casa que agora era sua. Pegou o número de Aron e começou a ligar. Logo na primeira chamada, ele atendeu.
— Sim, quem é?
— Oi, cunhado, boa noite! Sou a Sandra. A Joana veio aqui em casa, mas eu acabei dispensando-a por ainda estarmos em lua de mel. Caso você queira contratar outra pessoa para o lugar dela...
Ao fundo, tocava música alta, misturada a vozes e risadas.
— Ok, tudo bem. Provavelmente minha mãe queria bisbilhotar vocês, como sempre. Fez bem em mandá-la de volta. Ruim para mim, que vou ter que ouvir os sermões da minha mãe. E como está o certinho?
Sandra riu. Então o “certinho” não era tão certinho assim.
— Está bem.
— Quer tomar um café algum dia desses? Quase não nos falamos, só no seu casamento.
— Pode ser amanhã?
Aron se surpreendeu. Algo não ia bem no casamento do irmão.
— Claro. Amanhã às dez. Vou te enviar o endereço da cafeteria.
Sandra se despediu e desligou o telefone. Rezava para descobrir alguma coisa, nem que fosse um detalhe pequeno.

Capítulo 8 – O Refúgio do Certinho

Aron estava de camiseta, bermuda e tênis, bem informal. Sandra vestia calça jeans, uma camiseta colorida e usava os cabelos presos em um coque.
Ele já estava na segunda xícara de café.
— Bom dia!
— Oi, cunhada! Só você para me acordar uma hora dessas! Sente-se.
Sandra puxou a cadeira e sentou. Pediu um café e dois croissants.
— Bom, você não é muito discreto, desculpe a sinceridade. Lembro de todas as revistas de fofoca terem sua foto estampada.
Aron deu uma gargalhada, fazendo Sandra lembrar do esposo. Aquele sorriso era idêntico.
— Já que vamos falar de sinceridade, sei que meu irmão não está em casa, porque ele jamais deixaria você vir aqui tomar um café comigo.
Sandra corou. Será que ele conhecia tão bem assim o Alex?
— Ele está em casa, mas com o rosto grudado no computador. É difícil concorrer com o trabalho dele.
— Verdade. Ele e o trabalho… sempre foi assim. Lembro que, antes de vocês se conhecerem, a única vez que o vi sem estar com o rosto colado no computador foi quando compramos o apartamento para ele morar. Acho que foi há uns cinco anos. Ele estava feliz por finalmente ficar longe das artimanhas da minha mãe, que sempre procurava um jeito de fazer eu ou ele nos casarmos.
Sandra colocou outro pedaço de croissant na boca. A conversa estava interessante, e ela nem estava com tanta fome assim.
— Depois daquele dia, não vi mais Alex envolvido em conversas. Nas reuniões de família, ele só concordava. Sempre foi observador, mas aquilo já era demais. Minha mãe cansou de procurar esposa e deixou meu irmão “certinho” de lado. Foi aí que eu entrei em cena.
— Ele sempre ficava no apartamento para fugir da sua mãe?
— Não sei, acredito que sim. Você nunca foi lá?
— Ele nunca mais me levou ao apartamento. Acredito que tenha vendido, não sei.
— Acho impossível ele vender aquele apartamento com vista para o mar. Ele procurou feito um louco por um lugar daquele tipo: último andar, com vista para vários pontos de Copacabana.
Um fica em Copacabana. Anotado.
— Eu preciso ir, tenho compromisso à tarde — disse Aron, chamando o garçom.
— Não, eu pago — disse Sandra, abrindo a carteira.
— Já que você insiste…
Aron se levantou, e Sandra também.
— Cunhado, você poderia me passar o endereço do apartamento? Estou pensando em fazer uma surpresa. Mas pedir ao Alex as chaves e o endereço para mandar bebidas, comidas e outras coisinhas…
— Entendi… quer apimentar a relação. Está certo. Vou te enviar o endereço agora por mensagem. A chave eu não tenho. Alex insistiu para que eu nem colocasse os pés lá, muito menos sonhasse em levar alguém ali. Vou ser incisivo quanto a isso. Mas como você é esposa e já esteve lá, não há problema nenhum. As chaves você pode pegar com o segurança do condomínio, mas terá que levar algo que comprove que vocês são casados.
— Sem problemas.

Capítulo 9 – Vigiada

Alexandre Tavares, aos doze anos, foi convencido pelo tio a ir estudar na França. Dona Fátima Tavares bateu o pé, chorou, esperneou, mas foi em vão. O irmão de Fátima, Ferdinando Gonzales, era teimoso e viu em Alex o filho que nunca teve — e nunca teria.
O menino era esperto, inteligente e decifrava códigos com facilidade, habilidades perfeitas para o trabalho que o tio estava organizando. A agência de agentes estava sendo exterminada, e Ferdinando precisava se aposentar. Aos 60 anos, já não tinha forças para continuar. Ainda contava com bons agentes, mas não confiava totalmente naquele grupo; já fora enganado uma vez e quase perdera a vida.
Alexandre estudou nas melhores escolas de formação de agentes do governo. Quando chegou a época da faculdade, foi designado a se infiltrar entre os alunos e descobrir quem estava por trás do roubo de joias. Depois, os serviços foram aumentando. Aos poucos, ganhou a confiança do secretário presidencial, tornando-se agente secreto do governo.
Agora trabalhava em casos delicados do governo e não podia falhar. A vida de seus familiares estava em perigo — inclusive a de sua esposa. Ao se casar, tornara-se um alvo mais fácil para os inimigos. Para piorar, as fotos do casamento se espalharam por todas as revistas.
Ele sabia que seria uma vida difícil. Seu tio Ferdinando sempre o orientara a não se casar, muito menos ter filhos. Teve várias amantes, mas nenhuma fixa, pois não podia se envolver. Porém, com Sandra Moreira era diferente. Ela o conquistou. Ele a amava.
Estava infiltrado havia três dias. Deixara sua amada no Brasil e estava com agentes do governo à procura de um atirador que cometera um atentado dois meses antes — o mesmo que o atingira de raspão e matara um de seus companheiros. Por isso, não voltaria tão cedo ao Rio de Janeiro.
Estava sem celular, incomunicável. Até encontrar o responsável, não poderia falar com ela. E isso o deixava inquieto.
Sandra chegou em casa naquela manhã, depois de conversar com Aron. Remexeu a casa inteira, precisava de alguma prova de que ele era mesmo um agente. Não encontrou nada.
Respirou fundo. Aquilo estava acabando com ela. Precisava sair dali, mas não podia sair sem ele. Se fosse à casa dos sogros, perguntariam por Alex. Se fosse à casa dos pais, pensariam que estavam brigados.
Sentou-se na cama, soltou os cabelos e olhou para o teto. O ventilador girava lentamente, mesmo com o ar-condicionado potente ligado.
Precisava de uma escada.
No quintal havia uma. Afastou a cama, foi até o quintal e trouxe a escada de madeira. Subiu e retirou a pequena cúpula da lâmpada. Ao puxar a caixinha, encontrou uma pequena câmera.
Seu corpo começou a tremer.
Correu para a sala, cozinha e banheiro. Em todos os cômodos, encontrou a mesma minúscula câmera.
— Filho da… Então está me vigiando? Casamento coisa nenhuma! Você é um lunático!
Foi até a garagem, abriu a porta do carro e jogou o celular no banco ao lado. Estava furiosa. Provavelmente ele estava sentado naquele maldito apartamento, rindo da cara dela.
Chegou ao condomínio, mas o segurança repetia que não poderia deixá-la entrar — eram ordens do senhor Tavares.
Sandra pegou o celular e mostrou fotos do casamento, da lua de mel e deles juntos.
— Sou a esposa do senhor Tavares. E, para o bem do seu emprego, você vai me deixar entrar.
O segurança abriu o portão.
— Vigésimo andar… aqui vamos nós.
Sandra conseguiu convencer a administração do condomínio a lhe entregar a chave reserva. Chorou de verdade. Disse que ele a estava traindo havia meses e que queria passar a noite no apartamento.
Com as chaves nas mãos e a fúria no peito, decidiu que pediria a anulação do casamento pela manhã. Ele era um lunático. Como pôde fazer aquilo com ela?
Abriu a porta do apartamento. Tudo estava escuro. Seu coração gelou.
Com a lanterna do celular, tentou iluminar o caminho, mas foi em vão.
Sentiu uma mão por trás.
Tentou gritar.
E desmaiou.

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