Solo de Letícia
Solo de Letícia
M.R Silva
Sempre disponível, sempre forte, sempre pronta.
Mas… e ela?
Solo de Letícia é sobre esse vazio que nasce quando a gente se abandona. É sobre o momento em que a vida se torna rotina, obrigação e mera sobrevivência. É sobre como, às vezes, a única forma de suportar o real é inventar um sonho bonito dentro da própria mente.
Porque pensar em si, em certas circunstâncias, não é egoísmo.
É zelo.
É amor-próprio.
É resistência.
Capítulo 1: A Partitura do Vazio.
Sua vida resumia-se na música. Letícia era uma grande violinista que, outrora, sentira a vibração das notas ecoar em grandes palcos e sob luzes ofuscantes. Mas as luzes haviam se apagado. Agora, ela deixava o brilho das plateias distantes para retornar à pequena Florence, sua cidade natal.
Fazia mais de doze anos que não via os pais. Doze anos de silêncio, de fugas e de melodias que a levaram para longe, mas que não foram suficientes para preencher o que faltava por dentro. Ao cruzar os limites da cidadezinha, o som do violino em seu estojo parecia mais pesado, como se carregasse não apenas madeira e cordas, mas o peso de um retorno que ela nunca planejou.
Florence não mudara, mas Letícia já não era a mesma menina que saíra dali com o arco na mão e o coração cheio de promessas. Ela voltava para o lugar onde tudo começou, para a casa onde sua mãe a ensinara que mulheres deveriam ser úteis, silenciosas e zelosas.
A estrada de terra que levava à casa dos pais era a partitura de um passado que ela tentara esquecer. Agora, sem os aplausos e sem o glamour das grandes capitais, ela teria que encarar o silêncio de Florence e, pior ainda, o silêncio de si mesma.
Letícia chegava a Florence. Assim que desceu do carro, ficou alguns segundos parada, observando a cidade como quem encara um passado que ainda dói.
O parque estava cheio de crianças correndo e rindo, como se o tempo nunca tivesse passado. A igreja que ela frequentava na juventude continuava a mesma: paredes claras, portas largas… e estava aberta.
Seu peito apertou.
Resolveu entrar, tomada por uma curiosidade silenciosa. Talvez quisesse apenas confirmar se algumas coisas ainda existiam. Talvez quisesse sentir que nem tudo havia mudado.
Padre Daniel… seria ele ainda o mesmo?
Ao atravessar a porta, o cheiro conhecido de madeira antiga e velas a atingiu como uma lembrança viva. Lá dentro, ela ouviu o som de músicas suaves ecoando pelo templo, preenchendo o espaço com uma paz que ela não sabia se merecia.
Letícia caminhou devagar, os passos leves, como se tivesse medo de quebrar o silêncio.
Não era Padre Daniel. Assim que entrou, um padre mais jovem se aproximou. Tinha um sorriso sereno, daqueles que transmitiam paz antes mesmo de qualquer palavra.
— Boa tarde, minha filha. O que a traz à casa de Deus?
Letícia respirou fundo, tentando manter a voz firme.
— A bênção, padre. Eu vinha aqui quando era o Padre Daniel… Meus pais moram naquela direção, um pouco mais distante. Não sei se os conhece… provavelmente sim.
Ela apontou para fora, na direção da estrada longa. Um caminho cercado por casas antigas, coloridas e vivas, com senhoras sentadas nas calçadas conversando, como se o tempo ainda fosse o mesmo.
Então olhou para ele, com um desânimo quase inevitável.
— São os Dorias.
O padre arregalou os olhos por um instante, como se a informação tivesse despertado algo maior do que apenas reconhecimento. Logo, abriu um sorriso.
— Sim… eu os conheço. Estão sempre aqui ajudando a igreja. Sua mãe fala muito sobre você… mostra fotos, conta suas conquistas. Você é um orgulho para eles.
Aquelas palavras apertaram o peito de Letícia, mas não de um jeito bom.
Orgulho.
Ela sentiu um gosto amargo subir pela garganta ao lembrar da mãe… do quanto sempre fora difícil agradá-la, do quanto nunca parecia suficiente.
O padre então se deu conta de que ainda não havia se apresentado.
— Ah, perdoe-me. Sou o Padre Ângelo. Infelizmente, o Padre Daniel faleceu há cerca de oito anos. Fui designado para esta paróquia desde então.
A frase caiu como uma pedra.
Letícia sentiu o mundo desacelerar. Seus olhos se encheram rapidamente e, antes que pudesse impedir, as lágrimas escorreram.
Padre Daniel havia sido mais do que um sacerdote. Fora como um pai. O único que acreditara nela quando ninguém acreditava. Foi ele quem a incentivou a tocar violino ainda criança, quando ela tinha apenas sete anos e participava do coral da igreja. Foi ele quem ajudou a abrir caminhos para que ela fosse embora… seis anos depois.
Letícia engoliu o choro e sussurrou:
— Sinto muito por não ter vindo me despedir…
Padre Ângelo a observou com cuidado, como quem entende a dor sem precisar de explicações.
— O coral continua… — disse ele, tentando mudar o peso do assunto. — Agora temos o maestro Lorenzo Mellot, que ajuda as crianças e os jovens. Ele tem feito um trabalho admirável.
Letícia levantou os olhos devagar, como se aquele nome tivesse puxado sua atenção sem pedir permissão.
— Mas ainda nos falta uma violinista — completou o padre. — É a única pessoa que não conseguimos encontrar.
Letícia limpou as lágrimas com as costas da mão, respirou fundo e fez o sinal da cruz.
— Eu não toco mais, padre. Infelizmente… não posso ajudá-lo.
Padre Ângelo manteve o sorriso sereno, mas seus olhos tinham algo além da gentileza: uma certeza silenciosa.
— Deus tem um propósito para todos nós. E se você retornou… é porque Ele ainda precisa de você aqui.
Letícia soltou um sorriso pequeno, quase triste.
— Talvez eu ajude em outra coisa… mas não na música.
E então se virou.
Saiu da igreja carregando um peso ainda maior do que quando entrou… e seguiu rumo à casa dos pais, pela estrada que parecia levá-la direto ao passado que ela tentou apagar.
Capítulo 2: Onde as Estrelas Ainda Brilham.
Lorenzo Mellot não escolheu Florence por amor à terra, mas por necessidade de silêncio. Ele se mudou para a cidade há pouco mais de seis anos, em um momento em que a vida parecia ter perdido o norte. Comprou a casa onde residia por catálogo, uma decisão impulsiva tomada no meio de uma viagem, logo após perder a única pessoa que realmente tinha: sua mãe.
Ele precisava escapar do Mar Azul. O nome da antiga cidade, que antes evocava liberdade, passará a soar como o eco de um luto profundo. Florence era o oposto; se Mar Azul era imensidão e agitação, Florence era o recolhimento. Um local calmo, onde o silêncio só era interrompido pelo canto dos pássaros que davam o ar da graça pela manhã e onde, ao cair da noite, o céu ainda se deixava vestir por uma infinidade de estrelas.
Lorenzo precisava daquele lugar para se reencontrar. E foi ali, entre o luto e a calmaria, que ele começou a cultivar.
A ideia das flores não nascera dele, mas de Laura Mellot, sua irmã mais nova. Com a doçura de quem enxerga vida onde outros veem apenas terra, ela o convencera de que Florence precisava de cores. Hoje, Lorenzo era o orgulhoso dono de uma bela plantação. O Jardim Mellot não era apenas um comércio; era um santuário que abrigava oito tipos específicos de flores, cada uma com seu tempo e sua necessidade.
Ali, Lorenzo e Laura reconstruíram o que a vida havia quebrado. Enquanto ele cuidava das raízes, Laura cuidava da harmonia do lugar. Eles viviam naquela bolha de serenidade, sem imaginar que, na mesma Florence, uma violinista cruzava as ruas carregando um tipo de silêncio muito mais barulhento que o deles.
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